terça-feira, novembro 04, 2014

Meta-se com a sua vida

O título é uma ordem. Isso mesmo. Uma ordem expressa. Uma frase simples, que contém uma ordem simples, fácil de ser obedecida e, mais importante, fundamental para a boa convivência no trabalho, em casa, entre os amigos.
É claro que os meus três leitores podem estar se perguntando o motivo repentino do assunto. Não, não existe um motivo específico. Há vários. Isso mesmo. Várias pessoas se metendo na vida das outras, sem a menor cerimônia, sem pudor algum. E presenciei alguns casos ultimamente. Uns deles comigo, confesso, mas não vou entrar em detalhes. Não preciso. Aliás, nem faria, mesmo que precisasse. Falta-me coragem, sobra em mim vergonha. É, vergonha, mas do que os outros fazem, do ‘contorcionismo’ moral para justificaram uma leve “se metida” na vida das outras pessoas. Exatamente. Das “outras” (!) pessoas.
Nem tudo o que as pessoas querem fazer, viver, opinar ou sentir a respeito do que as outras vivem pode significar, à primeira vista, intromissão. Mas é. Independe do que seja. Pode parecer inofensivo ou simples, mas não se iluda. É intromissão, é gente que não tem o que fazer, anda desocupada ou, simplesmente, quer constranger, falar mais do que deveria. Pode ser até, quem sabe, querendo se meter.
Vi gente falando da magreza e do cabelo de uma menina, ouvi uma mulher falando com outra ao telefone que o namorado da terceira andava num Fiat Uno velho, soube por uma conhecida que a moça que trabalha na loja de sapatos tem uma namorada e a mãe não aprovou o relacionamento. No salão, alguém comentou com as outras clientes que o marido da prima tinha viajado e deixado a esposa sozinha com o filho de cinco anos, o que a teria obrigado a cuidar do menino sem a ajuda dele. No trabalho, alguém deixou escapar: “Sério? Ela está grávida de novo? Meu Deus! Parece uma coelha!”. Quem se meteu na minha vida disse coisa muito mais séria sobre mim mesma e que precisava saber, confesso. Só que a tal “insinuação”, ou “declaração”, ou sei-lá-o-que-realmente-é, não tinha muitos dados. Parecia especulação, confesso, embora eu torcesse, veementemente, para que fosse verdade. A mais pura, a mais real, sem nenhum detalhe falso. Só que não era. E, mesmo assim, ouvir aquilo, mexeu comigo. Entristeci, engasguei, chorei, briguei.
Até que entendi. Só entendi.
É o vermezinho da intromissão. É o demoninho que não se contenta em viver. E, com “viver”, entenda trabalhar, comer, namorar, tomar banho, dormir, passear, conversar, ter amigos, comprar um carro, quitar uma conta, gargalhar, permitir-se ficar sem fazer nada, dissecar a própria rede social ou deixá-la esquecida por meses só porque pode fazer isso, estudar, conquistar, amar, arranjar um filho, tomar um porre, curtir uma noite vendo filmes e comendo pipoca, fazer um exercício, dedicar-se a si mesmo, ser feliz, ou triste. Ou qualquer outra coisa. Não, isso tudo aí pode parecer muito, ou suficiente, mas não é. Pra muitos, é nada. Falta tomar conta da vida dos outros na lista. Falta expor a própria opinião, especialmente se for pra depreciar.
É, porque pra mim, se a intromissão não depreciar, não tem motivação. Quem se mete, nunca se mete pra elogiar ou pra falar bem da mãe do outro. Duvida? Então preste atenção ao redor e passe a ouvir com mais cuidado aquilo que as pessoas dizem, quando estão se metendo na vida das outras. E, não se espante se ouvir algo como “questão de honra”, “eu digo isso a ele mesmo” ou outra coisa parecida. Os que se metem são sempre os que juram que são perfeitos, que têm vidas perfeitas, relacionamentos perfeitos,
Se encontrarem algo diferente disso, intromissões com razões nobres ou motivações importantes, que não o próprio umbigo de quem as faz, por favor me aponte.
Serei feliz. Mas esquecerei. Prefiro ter a minha vida. Minha. Só minha e de mais ninguém.


Um comentário:

Guiliane Carraro disse...

Tá certa!!! De gente intrometida o mundo tá lotado