segunda-feira, outubro 13, 2008

No Largo da Carioca só os doidos ficam parados

O movimento humano é intenso no Largo da Carioca durante todo o dia. A pessoa vai atarefada mas tem sempre motivo para distrair-se um pouco. Existem os camelôs do Largo. Eles surgem, ninguém sabe vindos de onde, e estendem na calaçada suas folhas de papel manilha cor-de-rosa. Sobre o papel, os objetiso que desejam vender. Pentes, isqueiros, meias de nylon, canetas esferográficas, espelhos para bolsas, colares, cigarros americanos, perfimes franceses. Vendem tudo. E apregoam como verdadeiros publicitários. São pessoas estranhas que valorizam os artigos confessando um crime: o perfume francês é legítimo, foi contrabandeado... Quando surge o rapa, há uma correria impressionante no Largo da Carioca. Desaparecem como por encanto os pentes, as lapiseiras, as meias, laranjas, maçãs e os próprios camelôs. O povo continua indo e vindo. Meia hora depois, novamente a rua está cheia de artigos contrabandeados.

Outra atração do Largo são as baianas, vestidas a caráter, que acendem fogareiros na calçada e fazem doce para vender. No fim da noite, quando não há mais ninguém por ali e as lojas estão fechadas, estas negras de ar saudável e alegre recolhem seus tabuleiros e vão para a Central.


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A quantidade de doidos no Largo da Carioca é tão grande que faz pensar que nossos hospícios estão todos vazios. Mas são loucos mansos. Fazem parte da paisagem. uma modalidade de loucura muito freqüente, ali, é a que se caracteriza pela mania do discurso. Oradores ferozes fazem comícios para multidões em trânsito permanente. São doidos, cabeludos, pobremente vestidos, que deixam crescer uma barba na esperança de se tornarem profetas. Há também os párias, criaturas imundas, esfarrapadas, que domem no chão, entre as flores do jardim. Há ainda um tipo estranho que dá pena: o rapaz que come vidro e engole pregos para ganhar a vida. É inacreditável a quantidade de pessoas que, nesta cidade, comem vidro e prego para ganhar a vida... No Largo da Carioca, todos esses doidos passam despercebidos porque é enorme a quantidade de gente circulando ali. Mas, de vez em quando, os jornais publicam tópicos chamando a atenção das autoridades para essa humanidade marginal que transforma aquele logradouro numa espécie de de pátio da Idade Média. Mas o Largo da Carioca não é só coisa feia. Nele se encontram algumas grandes lojas, inclusive uma loja de artidos elétricos, que exibe em sua vitrine nada menos do que uma nascente de água natural, com pedras e folhas. Outra atração pitoresca é o barzinho especializado em dietas, que serve leite e coalhada, e em matéria alcoólica não vai além da cerveja preta, que faz parte do cardápio das senhoras em estado interessante. O Largo da Carioca é o centro febril do coração comercial do Rio de Janeiro: por ali circulam as pessoas que vão para os escritórios e para as lojas. É um lugar em que só ficam parados os doidos. Os outros, a multidão, vão e vêm incessantemente, sob o sol, porque não há árvores ali.


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Há no Largo da Carioca um jardim que foi plantado em 48 horas. Nos últimos três anos, esse logradouro conheceu inúmeras modificações. Terminou-se o desmonte do morro de Santo Antônio. Abriu-se a avenida Chile. Construiu-se o jardim em tempo recorde. Foi derrubada a Galeria Cruzeiro, cujos fundos davampara o Largo da Carioca. E finalmetne ergueu-se ali agora um arranha-céu gigantesco, de modo que o Largo da Carioca é uma paisagem em formação. Perdida a sua antiga fisionomia, que conservava desde quando desciam a rua do Ouvidor os homens de chapéu-coco e pince-nez, serão necessários agora muitos anos para que o novo rosto desse local se torne familiar e acabado como, por exemplo, a avenida Rio Branco. Por enquanto ali sopra constantemente um vento agradável, mas em compensação o sol bate em cheio sobre as pessoas e o tráfego é complicadíssimo. Atravessar o Largo da Carioca durante a tarde é uma temeridade. O que não muda, porém, é a sua humanidade: seus camelôs, seus malucos.

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