sexta-feira, dezembro 05, 2008

Cinco Lugares de Fúria

Extraordinário. É só assim que vejo, só assim que julgo.
Cinco lugares de fúria é isso. Extraordinário. E nada mais.
O poema, de Pádua Fernandes vale a pena. Tanto a pena que to colocando aqui pros meus três leitores se deliciarem com os versos mínimos que vão por várias e várias páginas.



sou o cu-

pim, ani-

mal meta-

físico,

abro o

nada na ma-

téria;

meu

gosto

é o

sólido,

minha voca-

ção

é o va-

zio;

quero o oco, po-

rém man-

tenho fe-

chado o que arru-

íno;

sopro, ilu-

são e

fera

sou no labi-

rinto;

cai i-

nerme o

pó,

deixo em

pé o va-

zio, a-

té que a

porta en-

fim

plena do

oco (a verda-

deira

casa)

abra-se definitiva-

mente para o

nada; e a

porta con-

verta-se em um

híbrido entre a

rua e a

casa; e

nada fal-

te para que

toda a ma-

téria se re-

vele

tão

útero (o

útero

nu,

sem mu-

lher al-

guma)

quanto o espaço;

pois

sei

ver e fa-

zer o a-

bismo in-

teiro em

cada

muro,

sei do

oco que pal-

pita para liber-

tar-se de

todo crânio,

sei que a

carne é o

verme do

corpo e

deve

ser ex-

pulsa para que

venha o

nunca-nascido e os

membros li-

bertos da

carne corram

livres pela ci-

dade e in-

vadam os

prédios e os in-

fectem de

não-

ter-

mais-en-

tranhas e o ci-

mento substi-

tua-se pela tempes-tade e os

cacos

chovam

dentro das pa-

redes e o

lixo a-

corde do pesa-

delo de

ter sido hu-

mano;

isso

eu

faço, cons-

truo no

prédios o ca-

minho para a liber-

dade esca-

vando o labi-

rinto; em

todo muro a

queda

é o

meu vício e

quando

nada

mais res-

tar em

pé se-

não o

fumo e a

pele e a

carne

só se encon-

trarem no

vento redi-

vivos

com os

meus

ovos

postos no

íntimo, a ci-

dade

não divisa-



mais entre

ruas e

rios, o

pó acolhe-



todos em seu

reino co-

mum e

quando aspi-

rarem a

terra em

vez da

brisa, sabe-

rão que es-

tão co-

migo,

não entre minhas

patas

(outros

prêmios guar-

dar pre-

firo em

minhas es-

tradas), mas em

minha

língua

que pro-

va e cons-

trói o va-

zio que

todo o

tempo



já es-

tava

a

por-

tas

fe-

cha-

das

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