Extraordinário. É só assim que vejo, só assim que julgo.
Cinco lugares de fúria é isso. Extraordinário. E nada mais.
O poema, de Pádua Fernandes vale a pena. Tanto a pena que to colocando aqui pros meus três leitores se deliciarem com os versos mínimos que vão por várias e várias páginas.
sou o cu-
pim, ani-
mal meta-
físico,
abro o
nada na ma-
téria;
meu
gosto
é o
sólido,
minha voca-
ção
é o va-
zio;
quero o oco, po-
rém man-
tenho fe-
chado o que arru-
íno;
sopro, ilu-
são e
fera
sou no labi-
rinto;
cai i-
nerme o
pó,
deixo em
pé o va-
zio, a-
té que a
porta en-
fim
plena do
oco (a verda-
deira
casa)
abra-se definitiva-
mente para o
nada; e a
porta con-
verta-se em um
híbrido entre a
rua e a
casa; e
nada fal-
te para que
toda a ma-
téria se re-
vele
tão
útero (o
útero
nu,
sem mu-
lher al-
guma)
quanto o espaço;
pois
sei
ver e fa-
zer o a-
bismo in-
teiro em
cada
muro,
sei do
oco que pal-
pita para liber-
tar-se de
todo crânio,
sei que a
carne é o
verme do
corpo e
deve
ser ex-
pulsa para que
venha o
nunca-nascido e os
membros li-
bertos da
carne corram
livres pela ci-
dade e in-
vadam os
prédios e os in-
fectem de
não-
ter-
mais-en-
tranhas e o ci-
mento substi-
tua-se pela tempes-tade e os
cacos
chovam
dentro das pa-
redes e o
lixo a-
corde do pesa-
delo de
ter sido hu-
mano;
isso
eu
faço, cons-
truo no
prédios o ca-
minho para a liber-
dade esca-
vando o labi-
rinto; em
todo muro a
queda
é o
meu vício e
quando
nada
mais res-
tar em
pé se-
não o
fumo e a
pele e a
carne
só se encon-
trarem no
vento redi-
vivos
com os
meus
ovos
postos no
íntimo, a ci-
dade
não divisa-
rá
mais entre
ruas e
rios, o
pó acolhe-
rá
todos em seu
reino co-
mum e
quando aspi-
rarem a
terra em
vez da
brisa, sabe-
rão que es-
tão co-
migo,
não entre minhas
patas
(outros
prêmios guar-
dar pre-
firo em
minhas es-
tradas), mas em
minha
língua
que pro-
va e cons-
trói o va-
zio que
todo o
tempo
lá
já es-
tava
a
por-
tas
fe-
cha-
das
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