sexta-feira, abril 24, 2009

O fim do mundo?

Passava da meia-noite. Eu tinha deitado pra dormir fazia alguns minutos, embora parecesse horas. Era o começo do sono, em que a gente acabou de desligar. Estava sozinha em casa. Meus pais haviam viajado. Eu ia trabalhar cedo no dia seguinte e estava exausta depois de ter dormido quase nada nas duas noites anteriores.
Fui despertada por barulhos de estouros. A intensidade variava. O intervalo entre eles também. Como estava sozinha, precisei fazer as vezes de 'homem da casa' (sim, porque isso é coisa pra homem fazer) e me levantei.
Estava tudo escuro. Eu durmo com todas as luzes da casa apagadas. Levantei, meio bêbada (é o único momento nessa vida que eu julgo saber como se sente um bêbado) e abri a porta do quarto. Aí é que a confusão começou. Eu não via um palmo à frente do meu nariz. Eu não conseguia entender o que era aquilo, porque é que eu não estava vendo nada. Virei pro quarto de volta e olhei a cama. Não, meu corpo não estava deitado lá. Então aquilo estava acontecendo comigo. Era eu mesma, em carne, osso e cegueira, a não ver absolutamente nada à minha frente. O corredor estava branco. Ou cinza, sei lá. Acho que além de cega e bêbada, estava meio daltônica.
E aquele cheiro? Será que tinha a ver com os estouros que me tiraram da outra dimensão? Parecia que sim. Aquele cheiro não me era estranho. Como toda alérgica que se preza, comecei a tossir. Tossir muito. Tentando vencer a barreira do corredor e tossindo. Assim estavam se resumindo os primeiros segundos fora da cama. Era fumaça. Agora eu tinha certeza. Estava entrando pelo meu nariz, minha boca e pelo ferimento recém adquirido na minha cabeça (na tentativa de passar pelo corredor, esbarrei cuidadosamente a cabeça na prateleira de vidro que fica na parede. Aliás, minha mãe precisa providenciar a retirada daquela prateleira de lá por questões de segurança. Ou me trocar de quarto).
Sem enxergar, consegui chegar à copa. Estava tudo muito mais branco (ou cinza) do que antes.
Se eu conseguisse ver alguma coisa antes, agora eu estava completamente cega. Não conseguia ver absolutamente nada.
A casa estava fechada e isso dificultava muito as coisas, consegui pensar em meio à tosse. Ou não, afinal, eu não sabia de onde estava vindo toda aquela fumaça. Tinha certeza que não havia ficado nem um foguinho aceso. Eu nem tinha acendido nada! Nenhum aparelho eletroeletrônico poderia ter causado aquela fumaça toda... tava tudo desligado! A geladeira tava ligada. Normal. Mas geladeiras não causam fumaça. Pelo menos não na vida real.
Venci a enorrrrme mesa que a minha mãe mantém na copa entre um sofá, o móvel da TV e o freezer e cheguei à parede que dá para um espaço vazio ao lado do prédio. Abri a cortina branca (ou será que ela era cinza e eu confundi por causa da fumaça? Sei lá!) pra tentar recuperar minha capacidade de visão e entender o que estava causando tudo aquilo.
E bastou.
Agora eu estava entendendo. O mundo estava acabando. Era a Batalha do Armagedon. Sim. Todo aquele fogo, à altura da janela da copa, só podia ser o cumprimento de Apocalipse. Aí bateu o desespero. Por vários motivos: o fim do mundo, eu estar sozinha e não poder falar com ninguém, estar sem notebook (isso significava que um post para o brog ia demorar pelo menos algumas horas) e o fogo propriamente dito. Isso sempre significa dor de cabeça. Quem já viveu, sabe do que estou falando.
O fogo estava ali e se eu abrisse a janela, muito mais fumaça iria adentrar a casa e meus pulmões não suportariam. Achei que melhor seria sair de casa.
Voltei à porta da copa, que me dá acesso à varanda da frente. Abri e muito mais fumaça do que eu havia imaginado ou inspirado invadiu a casa. Tossi muito mais.
Agora não tinha mais jeito. Eu precisava sair dali. A cozinha estava completamente anuviada agora. Era muita fumaça.
cheguei à varanda. Dali, era fácil ter certeza de que o mundo tinha acabado e que eu tinha muita companhia pra falar sobre isso depois. Pela janela da frente consegui ver a rua apinhada de gente. Por certo todos os vizinhos vieram ver se havia alguém no prédio. Algum sobrevivente, talvez.
Quando cheguei à janela, uma voz de homem que não me lembro já ter ouvido antes, gritou: "Flavinha, derreteu um cano aqui". Eu só consegui usar o meu questionamento mais célebre pra responder: "Jura?". "Juro!", o cara ainda respondeu. "Bem, eu não posso fazer absolutamente nada. Nem sei onde fica o registro daqui de casa, pra fazer alguma coisa". Não sei se poderia fazer alguma coisa, caso soubesse onde fica o registro de casa, mas o fato é que eu não sabia. E ainda não sei.
Ninguém disse mais nada e o fogo continuou aumentando.
Poucos minutos atrás, eu estava dormindo e agora estava dentro de um pesadelo. E se o fogo, que estava à altura das janelas do terceiro andar, onde moro, continuasse, poderia estourar os vidros. Isso aumentaria consideravelmente o problema. Foi aí que entrou em ação a Flávia jornalista. Sim, de vez em quando isso acontece. Deixei pra lá a história de fim do mundo. Se fosse mesmo, eu não poderia fazer mais nada!
Entrei rapidamente em casa, agora sentindo o sangue escorrer pelo tornozelo (por causa da leve batida que dei na mureta que separa a pia do resto da varanda), entrei na casa e soltei um grito! Não tinha nada de assustador dentro de casa, mas tinha uma cadeira na copa. Claro, aliás, tinha seis cadeiras. Todas estão ali há quinze anos. Acho que me esqueci. Se andando educadamente, como uma pessoa civilizada, a qualquer hora do dia, sem fumaça, eu esbarro em tudo, imagina no meio daquela confusão! A vítima foi minha coxa direita. Estava de short e o contato não feriu a ponto de sangrar. Mas doeu pra caramba (no dia seguinte eu vi... e vejo todos os dias depois disso O roxo ainda não sumiu...).
Esse post ta muito grande.
Continua no segundo seguinte... rs

2 comentários:

Thayra Azevedo ♥ disse...

Nãso sei se o comentário vai para a parte um ou dois. Que aventura! Ainda bem que saiu viva disso tudo.

beijos querida

Giovana disse...

Passei por situação semelhante com a PM. Minha vizinha estava sendo quase morta pelo marido e o 190 simplesmente NÃO ATENDIA!!!! Quando, finalmente, os policiais resolveram acordar e vir pro meu bairro, os outros vizinhos já tinham conseguido tirar a mulher e os filhos de casa. E o PM ainda chegou botando banca, nervoso,falando MUITO ALTO, dizendo que não tinha nada na casa e que daquela forma não poderia fazer nada, só se a mulher ainda estivesse em casa e pedindo socorro. E ela estava, há uma hora atrás, quando o PM não atendeu ao telefone.