Por partes. Parte da Índia reclamou do filme. Alguns chegaram a dizer que "Quem quer ser um milionário?" explora demais a miséria. Outros chamara o longa de 'pornografia da pobreza', em um país no qual 455 milhões de pessoas sobrevivem com menos de 3 reais por dia.
Isso acontece sempre no Brasil. Tropa de Elite é um exemplo recente. Sucesso absoluto - que eu amo, por acaso -, com produção boa, roteiro impecável, atores ótimos e mais uma enorme lista de "bons" e "ótimos", teve críticas sérias, com gente dizendo que aquilo era uma realidade cruel, que não merecia ser filmada e mais um monte de nãos por aí.
De fato, em Quem quer ser um milionário, a miséria indiana, retratada numa favela de Mumbai é forte. Daquelas que chocam. Mas era necessário. Faz parte do roteiro da história. Ela é o pano de fundo da vida de Jamal, o adolescente criado na favela, convivendo com todas as injustiças da classe mais baixa da pirâmide (se é que na Índia vale o conceito da pirâmide) e sofrendo uma vida desgraçada.
Jamal vira estrela de hora pra outra, depois que participa de um Quizz na TV, que lhe dá uma fortuna e o faz milionário. É tão inacreditável o sucesso que o garoto faz no programa, que o apresentador, um cara vaidoso, egoísta e egocêntrico (aliados a todos os outros 'egos' existentes e imagináveis), denuncia o menino por fraude. É aqui que começa o filme. Jamal, sendo torturado por policiais, que querem que ele confesse a fraude.
Conforme ele vai sendo questionado sobre como conseguiu responder a todas as perguntas do questionário de "Quem quer ser um milionário?", o público acompanha cada situação que o fez conhecer a resposta certa.
É incrível. Muitíssimo bem editado, o filme também traz um roteiro de fazer babar. São 120 minutos que prendem, que despertam sentimentos como asco, repugna e ódio, ao mesmo tempo que nos levam à compaixão. Uma realidade que se mostra fiel à realidade que a gente só conhece por fotos.
Quem quer ser um milionário? foi filmado com atores locais, canções indianas e verba restrita. O filme revelou ao mundo a indiana mais linda daquele país. Freida Pinto, o grande amor da vida de Jamal, por quem ele luta do início ao fim do filme, está sendo considerada uma possibilidade de nova estrela de Hollywood. Sim, de Hollywood e não de Bollywood, de onde é.

Talvez pelo baixo orçamento, o filme valha ainda mais a pena. Valeu cada um dos prêmios.
O filme tem alguns apses. Alguns momentos que fazem a gente grudar na poltrona. Momentos em que a gente pensa: "que irmão filho da piiiii tem o Jamal!" ou "Que mané este polícia!" e coisas do gênero. Mas um momento, pra mim, foi muito mais que isso. Lá no final, quando toda a esperança de Jamal se tornar o milionário no programa depende de Latika (a lindinha de Bollywood) atender a uma ligação sua no telefone celular. E o que acontece? Ela tinha deixado o aparelho no carro e demora a perceber que o telefonema que ele deu (ela está acompanhando pela TV) era pro telefone que estava com ela.
Ow... a platéia prende a respiração. E os meus três leitores podem se perguntar como eu sei - ou como eu supus - que o povo não tava respirando. E eu respondo. Eu sei porque todas as pessoas presentes naquela sala se mexeram no momento exato em que a menina chega ao carro e atende o celular a tempo, antes da mensagenzinha "o número chamado encontra-se fora da área de cobertura...". Todo mundo, sem exceção, se mexeu na poltrona e parte da platéia chegou a soltar o ar que tava preso no pulmão. Reação involuntária de todo mundo.
Quem quer ser um milionário? vale por tudo. Pelos atores. Pela fotografia chocante. Pelo roteiro impecável. Pela realidade. Pela música.
A Academia concorda comigo. Por ela, Quem quer ser um milionário? vale pelo melhor filme, pelo diretor, pelo roteiro adaptado, pela fotografia, pela mixagem de som, pela edição, pela trilha sonora original e pela canção original.
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