É só acontecer alguma coisa de grande repercussão, em qualquer área, para aparecer gentes que se julgam aptas a falar. E eu nem to falando de expressar opinão, to falando de gente que julga ter conhecimento técnico para explicar causas e consequências que um fato ou um grupo de acontecimentos pode ter.
Hoje pela manhãa TV era um show de ignorância. Não havia um especialista - de fato - pra dar uma ajudinha e enriquecer as pautas produzidas sobre a onda de ataques de violência que se abateu sobre o Rio de Janeiro no sábado e que ainda não terminou.
Uma equipe da Globo foi pro Congresso. Quem viu a minha amiga Marina Franceschini entrevistando deputados e senadores por certo não acreditou no que ouvir. Foi de lascar.
Alguns propuseram soluções. Claras, eu percebi, mas um tanto sem fundamento. O mais divertido de tudo era, com certeza, eu andando pela casa e discutindo com a televisão. Sim... eu me prestei a isso. Sabe aquelas ações que a gente não controla? Pois foi exatamente assim. Diante de declarações tão absurdas, eu não dei conta de ficar quieta. Se alguém tivesse visto...
O Michel Temer disse que agora está convencido de que a solução para o Rio de Janeiro é a unificação das polícias. Quem será que disse isso a ele?
O José Sarney disse que "está faltando planejamento mais efetivo, está faltando uma inteligência mais organizada e de melhor qualidade e nós não podemos aceitar que esse clima de violência continue a existir da forma como presenciamos". Foi assim que ele falou. E eu, na copa: "Alguém grite aí pra ele escutar que a situação da segurança pública no Rio começou com o Brizola e o Moreira Franco no Governo do Estado e com ele na presidência. Nada foi feito para que a situação, ainda no começo, fosse controlada. De fato, senador, não podemos aceitar esse clima de violência. E temos que fazer o que? Pode falar que fazemos".
A inspetora da polícia civil licenciada Marina Magessi disse que ninguém sobe o Complexo do Alemão por causa das obras do PAC. Ow... que me desculpem os trabalhadores que estão lá fazendo os recursos do governo federal virarem obra, mas se tem um fato que não impede que alguém suba o Complexo para atuar no combate ao tráfico de drogas, o cronograma de obras do PAC é ele. Desde quando um grupo de pedreiros (ou construtores, ou advogados, ou engenheiros, ou jornalistas, ou professores ou o que quer que seja) impede a ação da polícia em qualquer lugar que seja?
O Marcelo Itagiba, que já foi secretário de segurança do estado e responde a alguns processos por corrupção (não que isso influencie am alguma coisa), disse que a população não quer saber se o bandido é municipal, estadual ou federal. A população, segundo ele, quer cobrar a redução nos índices de criminalidade. Ahn... e? De fato o povo não quer saber a esfera pública do vagabundo nem quem vai prender, mas como vai prender. E quando, que, hoje, é a pergunta que não quer calar.
O ministro da justiça foi ainda mais longe e disse que tem gente que fica revoltando, achando que a polícia tem que subir o morro e matar bandido, só que se a polícia faz isso, quem morre é a população, porque os bandidos estão armados e resistem. Ta. Entendi. Mas então tem que fazer o que? Esperar o bandido descer? Subir e correr o risco de matar inocentes, mas subir? Armar o povo? É... aí seria uma briga justa. Todo mundo armado com fuzis... ah, e pode também fazer como o Brizola fez: "Deixar tudo como está. Ninguém sobe o morro, ninguém combate o tráfico de drogas e armas e cada um vive na sua". Alguém mais tem sugestões?
E ta todo mundo discutindo sobre a legalidade das gravações de conversas telefônicas, sobre a função de cada uma das polícias, sobre a autação do governo nas fronteiras e mais um tantão de discussões sobre coisa nenhuma, sobre coisa sem importância, que não vai levar ninguém a lugar nenhum.
É como quando há um acidente grave numa estrada, envolvendo um ônibus escolar, que vitima vinte crianças. A primeira coisa que todo mundo se pergunta é sobre a situação da documentação do ônibus e do motorista. Pode reparar como acontece: dois minutos depois de apurar quantas vítimas fatais fez o acidente, a matéria diz que o IPVA do ônibus tava pago, a última vistoria foi feita há um mês e o motorista estava plenamente habilitado para o trabalho.
Outro exemplo que eu conheci de perto foi uma eleição para governador em Brasília. A equipe do candidato Geraldo Magela fotografou carros do Palácio do Buriti, de placas brancas e devidamente identificados como sendo do Governo do Distrito Federal, carregando material de campanha do então governador e também candidato à reeleição, Joaquim Roriz. As provas eram claras, mas não foram aceitas pelo TRE porque haviam sido adquiridas de forma ilegal. Sim, o TRE tinha que ter autorizado alguém a fazer imagens ou fotografar o carro fazendo transporte do material, aí, sim, as provas poderiam ser aceitas.
Gente... as provas estão aí. No caso do tráfico no Rio é ainda mais grave. As vozes estão devidamente identificadas, a conversa está lá, fácil de ser entendida e vem gente dizer que tem que ser apurada a autoria das gravações. Não que não tenha... o caso é que há atitudes mais urgentes a serem tomadas.
E todo mundo se metendo a besta. A tal da Miriam Leitão deu lá a opinião dela sobre toda a situação da segurança no Rio e apontou soluções. "Alguém diga a ela que a área dela é Economia?", eu disse na cozinha. E não é que alguém disse? Ela emendou: "Eu sei que sou comentarista de Economia, mas Segurança Pública é Economia".
Eu desliguei a televisão. E saí chutando a mesa da cozinha.
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