quarta-feira, janeiro 19, 2011

Eles não gostam de mim

Não, eu não sou a pessoa mais pessimista do mundo ou daquelas que pensam que ninguém gosta delas, ou que o mundo conspira contra elas... essas coisas de doido.
Sou uma pessoa sociável, que tem amigos, gosta de tê-los por perto, de conversar, sair... o caso é que encontrei um grupo que não gosta de mim. E o pior é que outras pessoas já perceberam isso.
Todos os dias chego em casa do trabalho e, com horário de verão, não ta de noite ainda. Pelo menos não no céu.
Não há rotina nas minhas noites. Às vezes fico em casa, outras vezes saio. Tem dia que fico vendo alguma coisa na televisão da copa, ou lendo na sala, ou na cozinha fazendo alguma coisa, no quarto se to cansada... cada dia um programa diferente. E percebi que os que não gostam de mim sabem exatamente onde eu to e, muito provavelmento o que to fazendo.
Sim, eu moro num prédio altíssimo e é claro que eles não me veem, acredito que, por serem seres inteligentes, apenas supõem. E supõem certo, eu reconheço.
E eu digo quem são os que não gostam de mim: os cães que habitam a rua onde moro. E ainda explico:
Ruas sem comércio e com muitas casas têm muitos cachorros, certo? Esses, somados aos cachorros que não têm donos e vive, resultam num número ainda maior, certo? E se, exatamente nesta rua, um dos moradores for um veterinário e mantiver um canil nos fundos da casa? Teremos uma rua com mais cães que moradores. Certo? Sim, certo.
E os meus três leitores podem perguntar que relação eu fiz pra, de uma rua com muitos cachorros, concluir que eles não gostam de mim e querer saber ainda, porque eu citei com tanta riqueza de detalhes os cômodos da casa nos quais eu fico quando chego em casa, se estou em casa.
Chego em casa. Todos os cães da rua me veem chegar, é claro. Eu passo pela rua e todos estão por ali (exceto, claro, os que moram nas casas que ficam na rua de trás e os que habitam o canil do veterinário).
Subo as escadas. Se estou na copa ou na cozinha, eles não sabem, apenas supõem. Sim, porque a maioria deles mora do outro lado do meu prédio e não tem visão das janelas da copa ou da cozinha. Logo, eles podem, no máximo, supor que eu esteja por lá. Não têm como, porém, terem certeza.
Se eu estou na sala, eles sabem. Devem ter algum tipo de habilidade especial e já terem entendido que, quando a segunda janela da lateral do prédio tem sinal de iluminação, eu devo estar por ali. E permanecem no mesmo estado anterior, sem demontrarem tanto sentimento ruim por mim.
Quando entro no meu quarto e acendo a luz, acho que já começa um movimento de organização entre eles. Talvez o grupo dos mais espertos (ou não) avise aos outros que eu estou no quarto. Isso eu acho, ta, gente... não dá pra ter certeza.
Fico no quarto, ligo a tv, faço uma coisa e outra, folheio uma revista... enfim. Como eu adquiri uma mania feiíssima de dormir com a televisão ligada (que desliga 20 minutos depois que eu deitei, por ter sido devidamente programada para isso), a exposição dos sentimentos dos cães que moram nas proximidades da minha casa demora um pouco mais.
Mas ela começa com força total no exato momento em que a televisão desliga. Nesta hora, quase que invariavelmente, eu estou dormindo com força total há, pelo menos, 10 minutos.
E queira Deus que eu tenha aproveitado este tempo. Porque será exatamente o tempo de paz da sua noite. Depois deste, outro, só lá pelas 4 da manhã...
Quando as luzes se apagam completamente, começa um inacreditável coro de latidos. Se bem que inacreditável mesmo ele fica dois minutos depois, quando todos os cachorros das casas já ouviram e dão apoio, os que moram na rua, talvez por se sentirem excluidos durante a maior parte do tempo, querem fazer parte de um grupo tão sólido e os do canil, por puro instinto, aderem ao (longo) momento (que mais parece uma eternidade) e entram na onda.
Eu já percebi o modus operandi (nuss... "a investigadora") dele. Depois que a luz se apaga, o cãozinho malhado da casa que fica na esquina da rua que sobe e tem uma visão privilegiada dos meu passos começa a sacanagem. Depois, dois viralatinhas (sim, são pequenos e só viram as menores latinhas) aderem ao coro. O labrador da casa seguinte é o quarto. Em 25 segundos, é a vez do Flash (sim o rotweiller do Devan, que mora a 200 metros da minha casa) começar a latir junto. A esta altura, todo o canil já está em polvorosa.
Antes de perceber que era um complô dos seres que menos gostam de mim no mundo para impedirem a minha tranquilidade, eu, assim que percebia que eles não iam me deixar dormir, levantava daquele jeito... tateando, arrebentando o dedinho do pé na beira da cama, batendo a cabeça no guarda roupa, chutando a porta... até achar o interruptor.
E custei a entender que era como uma mágica. Luz ligada, barulho desligado. É, é sério. Dia desses, quando tive a ideia deste post, pensei em filmar, gravar... sei lá, só pra provar. Mas desisti. O fato é que isso acontece, por isso eu conclui que eles entendem que quando a luz está apagada e a televisão desligada, é hora de dormir. Luz acesa, Flávia acordada. Silêncio sepulcral.
De umas noites pra cá, eu até tentei enganá-los. Entrei sorrateiramente no quarto, sem acender a luz, fiz o que tinha que fazer no escuro (aliás, no dia seguinte nem acreditei na bagunça que estava o quarto: uma mistura monstra) e deitei. Porém, poucos segundos depois eles perceberam, sem que eu saiba explicar como, que eu tinha me deitado para dormir.
Só consigo dormir de verdade, de dia. Sim, aí eles dão paz. Vai ver que estão ocupados fazendo gargarejos, pras gargantas estarem ótimas mais tarde.
Ou depois das 4 da manhã, quando os galos começam a cantar. Aí eles vão dormir. E eu, vou esperar os galos pararem, pra eu levantar e sair para o trabalho.
Sim, eles não gostam de mim. Certeza.

2 comentários:

Giovana Damaceno disse...

Passo por uma situação semelhante, mas é com um cão apenas. Mudei de casa e da janela do meu quarto avisto uma varanda no andar de cima da casa ao lado, com uma grade e um papelão bem grosso que a cobre. Nele, há um buraco por onde o cãozinho chato enfia a cabeça para latir pra mim. Isso mesmo. Ele late pra mim. Basta eu deitar na minha cama, a qualquer hora do dia, e ele vem. Enfia a cabeça no buraco, olha diretamente para a minha janela e não para de latir enquanto não fecho a janela. Até o Lincoln já deu a volta pelo quintal para ter certeza de que o cão latia mesmo pra mim e confirmou. É mole? Justo eu?

F. Resende disse...

miga, vc é doida. mas eu te amo.