quarta-feira, fevereiro 24, 2010

O pior lugar, parte 2

É, depois deste estrago, eu fui racional e parei como uma estaca. Puxei a tomada do ventilador e o levantei. No escuro. Consegui essa proeza.
Pronto. Ventilador de pé novamente (acho que preciso de um de teto... como sou como uma paçoca, numa esbarraria nele), e xingando três gerações pelo dedinho que parecia querer sair correndo do meu pé, andei calmamente (sim, com todo o esforço que encontrei dentro de mim, porque o telefone continuava tocando), calculei que a cama já tivesse terminado e virei pra direita. O caminho do telefone era por ali. Ou seria, porque a cama ainda estava lá. Bati na cama. Beleza. Isso nem doeu. Aliás, deve ter doido, mas como eu tava com o dedinho sendo arrancado do pé, o joelho nem deu sinal de vida. Ou de morte.
Depois dessa, saí da cama. Caminhei paralelo à parte que abriga os meus pés, virei e caminhei em direção à porta. Da saída, graças a Deus. Nessa caminhada de uns dez passos, esbarrei na outra parte da cama, quando cheguei um pouco pra esquerda, bati o braço esquerdo no puxador do guarda-roupa, quase caí tropeçando em duas almofadas que, quando estou acordada, ficam sobre a cama, mas ficam no chão quando eu estou dormindo e, finalmente, abri a porta.
Daí, foi fácil. A luzinha vermelha do telefone estava piscando, num acompanhamento preciso ao áudio pior do mundo. Pelo menos naquele momento.

Até o telefone, só bati o pé direito na beira da mesinha, mas nem doeu. Peguei o telefone, apertei a teclinha que tava vermelha (porque o maldito tava tocando) e disse "ALÔ". Caraca! Em vez de alguém dizer "Oi, é fulano de tal, desculpa o incômodo", alguém - que deve ter sido a companhia telefônica - tava tocando um píííííííí que o meu cérebro não conseguia processar.
Apertei novamente a teclinha maldita e depois, de novo. O píííííí permanecia lá, resoluto (foi a palavra mais cabível que encontrei).
Não era possível. Não, não era. Coloquei o telefone na base e sentei na cadeirinha que tem anexa à mesa. É, se nos próximos dois minutos tocasse novamente, eu atenderia. Se não tocasse, eu, inteligentemente, levaria o telefone sem fio pro quarto (aliás, por que eu só faço isso quando to sozinha em casa?).
Ali, sentada, senti dor no dedinho do pé esquerdo, no joelho, no ombro direito e, como não bastasse, no dedinho do pé direito também. E se você não entendeu o porquê de tanta dor, eu refresco sua memória... acho que tava no post anterior: todas estas partes do meu corpo eu esbarrei em algum lugar no caminho da cama ao telefone... rs.
Tocou de novo. Graças a Deus.
"Alô"
"Oi, Éfe. É a A". Não, eu não tava acreditando. A Aline ligando às 2 da manhã? Devia ter sido presa com droga, ou por homicídio, ou tava num cativeiro e conseguiu fazer ligações como no filme CELULAR... meu Deus, sim, era isso!
"Oi, Aline... o que houve? Você ta bem?". Meu coração tava aos pulos. Sério que tava.
"To bem sim. Minha mãe ta dormindo, né?". E não, ela não esperou resposta, porque eu teria respondido se ela tivesse me dado tempo. E continuou: "Eu disse que ligaria tarde. Diga a ela amanhã que eu acabei de fazer a transferência do dinheiro pra conta dela?". Claro que não era isso. Agora vinha o susto: ela tava sequestrada e iria pedir ajuda. Eu ia, sim, mobilizar o mundo inteiro, claro. Minha irmã! Mesmo ligando às 2 da manhã, é a minha irmã!
"Ta, mas diga o que aconteceu", eu, já apavorada.
"Só isso. Ela vai precisar do dinheiro na semana que vem, mas achei melhor transferir logo, pra ficar livre. Fiz isso agora por telefone. Tudo isso é a tecn...".
Ela diria "tecnologia", com certeza absoluta. Mas eu não ouvi o resto. Gritei meia dúzia de palavrões, que acordaram a minha mãe (em dois segundos ela veio de Ghost... como pode?) e tava com uma cara de que tinha visto um fantasma (sem trocadilho com a localização do quarto dela) e calaram a Aline.
Dei o telefone pra minha mãe, que já tava quase chorando e disse, calmamente: "É a Aline. Parece que morreu alguém. Ah, e manda ela se pííííí por mim, eu esqueci".
Voltei pro quarto. Sem bater em nada. Foi mecânico...
Deitei, fechei os olhos e pensei: o pior lugar desta casa é o meu quarto. Ou seria o pior lugar do telefone? Ou seria, ainda, o pior lugar do mundo?
Preciso repensar...

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