segunda-feira, abril 11, 2011

Uma crítica

Era o dia do massacre na escola de Realengo.
A TV Globo, ao que me consta, modificou a programação matutina, para transmitir flashs (ou tempo integral, não si) sobre o assunto.
Fui almoçar e quando cheguei em algum lugar, acho que uma sapataria (hum... será? Não frequento sapatarias!), a emissora estava transmitindo uma entrevista, num estúdio. Era aquela apresentadora Ana Paula não-sei-do-que, conversando com duas pessoas. Uma, confesso, não me lembro quem era. A outra era o Rodrigo Pimentel, alçado ao posto de "especialista em Segurança Pública da TV Globo".
Ta.
Ela perguntava e o cara que eu não lembro quem era respondia. Não me lembro porque não prestei atenção, as perguntas não tiraram o meu interesse pelos sapatos (ou o outro produto).
Aí, ela anunciou que iria fazer uma pergunta pro Rodrigo. Foi automática a minha mudança de foco. Virei-me pro televisor. E veio a pergunta:
"Rodrigo, qual o perfil deste assassino? Já é possível traçar?".
Vamos por partes. Faltou produção, informação. Alguém tinha que ter informado a ela que quem traça perfil não é especialista em segurança pública, mas profissionais das áreas que envolvem a Psicologia.
Agora, o pior foi que ele respondeu...
Antes de dizer, preciso destacar que gosto dele, já li os livros que ele escreveu, reconheço que ele sabe do assunto Segurança Pública, mas....
Ele disse: "As imagens das câmeras da escola e os exames de perícia vão mostrar qual foi o trajeto que ele percorreu, quantos tiros ele deu, qual o tipo de arma e de carregador ele usou e até quantas munições não atingiram nenhuma pessoa. Vai demorar um pouco pra se ter essa informação".
Hã?
O perfil do cara agora vai ser traçado pelo trajeto dele dentro da escola, pelo número de tiros que ele deu e até pelo fato de que ele estava com um carregador automático de 38?
Alguém pode explicar a resposta dele, com um argumento simples: o de que ele teria ficado "sem jeito" de dar a resposta correta. Eu diria que não teria motivos pra isso. Dizer pra ela que não faz parte da formação dele o trabalho de traçar perfis de assassinos, ou que profissionais da própria polícia iriam trabalhar nisso, seria simples e não teria nada de errado....
Mas nem isso ele fez.
E se o que ele disse tivesse o mínimo de fundamento, ainda seria aceitável. O caso é que o perfil do cara vai ser traçado pela sua história pregressa: o que ele fez no dia anterior? Com quem ele conversou no dia do crime? O que ele disse? E na semana anterior? Nos e-mails dele, qual linguagem usava? O que diziam as mensagens? Ele namorava? Se sim, cadê ela? Se não, com quem ele convivia? Ele já tinha passagem pela polícia? Por quais crimes? Se sim, haveria ligação entre os crimes praticados por ele anteriormente e este massacre? Se não, seria por não ter mesmo, ou por nunca ter havido denúncia contra ele? Ele gostava de comer o que? E de beber? Tinha amigos no bairro? Na cidade? No país? Mantinha un diário pessoal?
E mais infinitas perguntas que não teriam absolutamente ligação com o que ele fez dentro da escola. Pelo menos não teria, no dia do crime, quando as equipes de perícia ainda estão começando a estudar o fato e a polícia, identificando vítimas vivas e dando início aos depoimentos.
Deu raiva ver aquela entrevista. Mas mais que raiva, deu vergonha. Pela jornalista, pela produção que não se atentou pra isso e pela respostinha descabida do cara.
Hoje a imprensa inteira está noticiando que psicólogos devem ter o perfil dele em 30 dias.
Rodrigo e Ana, vamos ter que esperar...

4 comentários:

Giovana Damaceno disse...

Tô batendo nesta tecla há dias. Tá todo mundo focado só no assassino. E o homem por trás dos revólveres? E foi nisso que tropeçaram a jornalista e o entrevistado. Somente o assassino e o assassinato.

Giovana Damaceno disse...

Tô batendo nesta tecla há dias. Tá todo mundo focado só no assassino. E o homem por trás dos revólveres? E foi nisso que tropeçaram a jornalista e o entrevistado. Somente o assassino e o assassinato.

Andressa disse...

Não faz o menor sentido. E ainda há quem esteja fazendo esse mesmo questionamento...

Anônimo disse...

TEM HORA QUE CANSA.