quinta-feira, abril 19, 2012

Eu sou dessas...

Eu sou dessas pra um monte de coisas. Pra dizer melhor, a expressão "eu sou dessas", que me faz diferente da grande maioria das pessoas, se encaixa em praticamente todas as situações.
Dia desses eu tava assistindo a um telejornal. Lá pelas tantas, percebi que eu retruquei boa parte das matérias. É, pode parecer coisa de doido, mas foi isso mesmo. Depois, passei a prestar mais atenção no que penso ou digo quando estou à frente da televisão.
O resultado foi, no mínimo, divertido. Descobri cada coisa a meu respeito....
Por exemplo... eu sou das que perguntam à apresentadora do telejornal por quê o blazer dela é tão feio, ou por quê deixaram que ela cortasse as franjas "daquele jeito" ou ainda se ela não sabe ler o TP mexendo menos as mãos.
Sou das que fala com o repórter da rua que aquela pergunta poderia muito bem ter sido melhor formulada, que a entonação que ele deu ao texto final da passagem poderia ter sido diferente e, consequentemente, transmitir melhor a mensagem. 
Quando o assunto é concordância ou gramática então... dá até medo de ficar perto de mim.
Sou das que chama o repórter que ta na rua de burro, quando ele troca "ver" por "perceber. Quer ilustrações? Em um bar onde tudo se queimou durante um incêndio, inclusive as paredes, vem a narração em linha do jornalista: "Como dá pra perceber, este local foi queimado durante o incêndio" (ou alguma coisa parecida com isso). Aí, entra a minha participação: "Não, eu não to percebendo. Eu to vendo". E prossigo na explicação, por vezes, em voz alta: Existe diferença entre perceber e ver. O que ta ali, escrito, desenhado ou queimado, possibilita a visão e não a percepção.
Tem também as vezes que a frase dita no telejornal começa com o uso de "a gente" e termina com o verbo na terceira pessoa do plural. Eu sou das que corrige e ainda reclama da falta de leitura entre os profissionais que atuam em televisão. E pra quem acha impossível uma concordância assustadora como essa, eu sou das que exemplifica: "Como a gente ta preocupado com o número de casos de Dengue no estado e tentando evitar que mais mortes aconteçam, preparamos uma série de reportagens"... viu só? É bem possível.
E quando o apresentador tem tique? Ah, eu sou das que por muito pouco não bate na tela da televisão pra chamar a atenção dele pro fato: "Ow! Para de piscar tanto os olhos", ou "deixa de torcer a boca pra este lado, garota!".
No dia em que percebi que converso, discuto, discordo e tenho mais várias atitudes em relação aos programas de televisão, aconteceu um fato confuso. E eu cito com detalhe, afinal, de contas, sou dessas. Era Bom Dia Brasil. Carla Vilhena entrou ao vivo, de SP, para falar da dona de casa, que morreu após ser atingida por uma bala perdida, a 500 metros da casa onde morava. E chamou a reportagem. Ela veio. O texto do repórter contou o fato e finaliza a matéria dizendo que um dos homens que estavam trocando tiros foi ferido por um tiro na mão, mas conseguiu fugir. Aí vem a pérola: na nota pé, a apresentadora: "este homem ferido na coxa...". Hein? Eu não permaneci sentada, não consegui (é, eu sou dessas). Praticamente tive uma síncope. Custei a acreditar nos meus ouvidos e precisei acessar o site do programa e rever a reportagem, pra ter certeza de que tinha sido aquilo mesmo. Sou das que não consegue acreditar quando o caso é praticamente inacreditável (o video da reportagem completa ta aqui).
E assim eu vou vivendo. Discutindo com o especialista em Segurança Pública, Rodrigo Pimentel, dono de múltiplas habilidades que, no entanto, não o habilitam a desafiar a lógica, sob a complacência do jornalismo. Vou vivendo rindo do programa chinfrim que ta no ar agora. Vou vivendo mostrando (pra mim mesma, claro) que houve um erro gritante ali, cometido pela equipe de direção. Vou vivendo questionando profissionais sofríveis. Não tinha que ser, mas sou dessas.
E isso é mais comum na televisão, porque na televisão a gente não tem só o texto, como no jornal ou na internet. Na televisão, a gente tem o apresentador e o repórter (vestido, penteado, maquiado, com as unhas feitas e mais um monte de coisas que chamam a atenção), texto, a imagem da matéria, a edição (que esquece quase sempre que texto e imagem se completam e que não adianta texto sem imagem ou imagem sem explicação), o BG e mais um monte de características que chamam a atenção.
Eu sou dessas, sim, que fala sozinha, ri, questiona, comenta... o problema é que nunca ninguém, além do Dê (que quase nunca ta por perto), me escuta, participa comigo...
Sim, também sou dessas que sofre por não ser ouvida em suas críticas.

2 comentários:

Giovana Damaceno disse...

Li um artigo esta semana sobre os textos repetitivos no telejornalismo. Aliás, não só os textos, mas todo o padrão que se mantém o mesmo há anos, justamente num meio tecnologicamente avançado. Tô torcendo a memória pra me lembrar de quem é o texto e onde li, mas meu déficit cognitivo me pega nestas horas.

Priscilla Vieira disse...

Ow vai fazer um mestrado e entrar na FOA, os alunos de jornalismo precisam de você, pronto falei! rs