quarta-feira, maio 23, 2012

Tortura ao vivo*

Um colunista da Revista Alfa se submeteu a um domingo inteiro assistindo à TV aberta, sem sair de casa. O resultado? Eu gostei tanto da opinião dele, que decidi compartilhar.... ta aqui...

Tortura ao vivo

9:15 (SBT) Acordo estremunhado e Chaves está passando na tevê, que deixei ligada. Nunca vi Chaves, o que me deixou de fora de metade das conversas ao longo da minha vida. É inocente e tudo, mas é difícil imaginar uma geração que cresceu vendo isso sabendo escolher uma gravata.

10:50 (Record) Uma má fase do Picapau, e eu nem sabia que ele havia passado por uma má fase. Cores berrantes de todos os desenhos pós-anos 1980: verde-tomada, roxo etc. (As mesmas cores dominarão o dia em todos os programas de auditório.)

11:10 (Globo) A Globo parece ter descoberto o que é curling, e por Deus como estão empolgados. Crianças assustadoramente desajeitadas aprendem o esporte. Esporte no Brasil é tratado pelos canais abertos como hobby de pessoas com um leve retardo mental: com um tom constante de bom humor nauseante, mascotes, animações etc. Os apresentadores parecem um casal excessivamente amigável e um pouco burro que você tentaria evitar durante uma excursão.

13:00 (Globo) Regina Casé. A plateia parece selecionada para que ninguém seja mais bonita que a apresentadora. Aparentemente toda atividade humana é considerada cultura por Regina Casé. “Ai, que mistura antropofágica tropicalista deliciosa”, ela diz. Esse programa tem uma ideologia sinistra: uma mescla blasfema de modernismo, tropicalismo e ecologia. Se quer saber qual a ideologia da verdadeira casta dominante brasileira, veja isso. Pessoas com “experiência de sustentabilidade” são entrevistadas e se entediam umas às outras.

14:00 (Globo)
Vovozona parece grande arte depois disso tudo – um filme de Renoir ou Ozu.

16:50 (Record) Um cavalheiro pouco instruído e de testa alarmantemente baixa puxa a minissaia de uma gostosa com uma espécie de aspirador. Todos riem. Isso dura uns 10 minutos. Tudo tem uma lubricidade tão desanimada que poderia ser apreciada na companhia dos seus avós.

17:30 (SBT) Eliana. Mulheres meio acabadinhas de meia-idade corrigindo “falhas na sobrancelha”. “Batalha das Encalhadas – Faltou química ou pegada?”

17:40 Não queria quebrar o fluxo de idiotia, mas li um pouco de Camilo Castelo Branco no banheiro. Isso é trapaça?

18:00 (Globo) Faustão, emagrecido, mostra videocassetadas com a cara trágica de um promotor relatando horrores no tribunal de Nuremberg. Voz do Faustão muito alta. Sensação de vergonha de que ouçam a voz dele saindo do meu apartamento.

19:45 (SBT) Sílvio Santos, cujo programa não vejo desde a infância, mantém sempre um tom de zombaria em relação ao público. Isso basta para torná-lo superior aos outros apresentadores, como ser humano mesmo, porque sua zombaria parece mais honesta que a bajulação e a falsa simpatia dos concorrentes. Quase entendo o carinho que alguns dos meus amigos sentem por ele. O imperdoável é que usa um terno apertado demais na barriga e combina sempre a gravata com o lenço.

20:50 (Globo) Depois de ver um pouco de Baywatch na Bandeirantes (me recuso a dizer “Band”, sempre acho que estão forçando a intimidade), passo para o Fantástico. Revelações desenxabidas sobre corrupção. Não vai ter reportagens com pessoas deformadas, ou sobre o Segredo de Fátima, com música sinistra? Nada jamais me meteu tanto medo quanto os Fantásticos da minha infância.

21:00 Minha namorada vem me ver e respondo com sons guturais de macaco. A vulgaridade deve estar emanando do meu rosto como a tristeza do rosto do Faustão. Uma sensação de que o conjunto de possibilidades da vida foi drasticamente reduzido. Estou convencido de que ninguém tem uma preocupação intelectual no mundo. Durante anos não quis visitar os canais abertos porque tinha medo de ser assaltado. Depois de 12 horas nesse bairro industrial abandonado, nada me aconteceu fisicamente. Mas os efeitos mentais demoraram algumas horas para passar.

*Fonte: Revista Alfa

Um comentário:

Giovana Damaceno disse...

"Voz do Faustão muito alta. Sensação de vergonha de que ouçam a voz dele saindo do meu apartamento."
Bom demais!