quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Cada um na sua

Sempre fui assim. Pra mim, cada um tem que fazer ou dizer aquilo para o qual é apto. Depois da faculdade e de alguma mísera experiência, continuo muito mais radical sobre o assunto.
E eu explico.
Quando fazia polícia, eu encontrava todos os dias, profissionais que, com pouca noção da área que estava cobrindo, metiam os pés pelas mãos e acabavam cometendo erros crassos. Alguns, por atrasos, perdiam a oportunidade de falar com as principais fontes: os policiais que haviam participado da ocorrência. Sem as principais fontes, então, restava a eles usar apenas as fontes disponíveis. Não era raro encontrar, no dia seguinte, matérias que apresentavam os fatos completamente distorcidos, já que o repórter falava apenas com o delegado ou com um agente que presenciou o depoimento dos envolvidos.
Na área policial, onde não há como prever quando, como e a que horas o fato acontecerá, estar disponível para o chamado é fundamental para a boa apuração da matéria. Não conseguir falar com as fontes principais termina em informações equivocadas, na certa. Isso, porque o delegado que tomou os depoimentos, vai dizer aquilo que ele entendeu, sem os detalhes - extremamente importantes - que seriam dados pelo policial que estava no local do fato.
Quando o fato é o contrário e o repórter não consegue falar com o delegado que lavrou o flagrante, é um tal de questionar ao policial militar ou ao bombeiro (sim, ao bombeiro) a tipificação do crime no qual o preso foi autuado, que dá até vontade de chorar.
E dá vontade de chorar porque ta tudo errado. Se o policial militar ou o bombeiro ou o guarda municipal ou um cidadão comum participou da ocorrência, é ele a melhor fonte. É ele quem sabe responder, nem sempre  com clareza e precisão, como o fato aconteceu. E se o delegado é o profissional que lavra o flagrante e, para isso, conhece as leis nas quais o detido foi enquadrado, sem sombra de dúvidas, ele é a pessoa indicada pra falar sobre "crime e pena prevista".
O mesmo acontece com as testemunhas. Somente elas podem falar sobre como estavam, o que faziam, o que vestiam, o que falavam e tudo o mais que aconteceu, no momento do fato. Não tem como saber estes detalhes, conversando com alguém que simplesmente ouviu falar do caso.
E isso tudo, pra um caso simples de uma matéria policial. Exemplos que eu conheci pessoalmente. Mas não é só isso. Dia desses eu li, em uma rede social qualquer, a postagem de um amigo dentista indignado com o fato de que, num programa matinal de televisão, um dentista que atua como um consultor do programa, estava falando sobre exames preventivos femininos. Não, não é brincadeira. O dentista, na entrevista ao vivo, deu detalhes sobre a importância do papanicolau, por exemplo.
E quando uma psicóloga, por falta de profissional mais indicado, é a eleita pra falar sobre os regime de bens adotados em casamentos? Sim, eu já vi isso.
Daqui a pouco tem professor falando sobre a arte de cultivar samambaias, chefs de cozinha explicando por quê o salto alto faz mal pra coluna da mulher e astronautas dando dicas dos melhores locais pra encontrar pedras preciosas nas minas terrestres.
É, definitivamente o sentido de "cada um na sua" ficou perdido por aí...

Um comentário:

Giovana Damaceno disse...

Em uma ocasião, ainda na TV Rio Sul, tive a oportunidade de cobrir um acidente na Via Dutra, onde estava também um jornalista renomado e super respeitado da cidade, cobrindo para um jornal.
Qual não foi minha surpresa no dia seguinte, ao abrir o jornal e me deparar com um monte de exageros. O cara, que era até referência para muitos, simplesmente inventara fatos e dados sem o menor constrangimento.
Depois deste episódio passei a prestar maior atenção às matérias que ele escrevia e constatar que era prática comum.
Deus meu!