segunda-feira, outubro 20, 2008

Concordando com a Rede*



O ator Pedro Cardoso, o Agostinho de "A Grande Família" fez um manifesto contra nudez de atores e atrizes na dramaturgia brasileira. No elenco de Todo Mundo Tem Problemas Sexuais, de Domingos de Oliveira, Pedro Cardoso pediu para que o filme não contivesse cenas de nudez, apesar de ter o sexo como tema.
A atriz Cláudia Abreu, que integra o elenco do filme, apoiou o manifesto antinudez do colega Pedro Cardoso. Após o discurso do ator, no Cine Odeon, ela foi ao microfone e disse: "Queria dizer que sou atriz e endosso tudo o que ele falou. Passei por uma situação recentemente. Ele está completamente certo".
Pedro Cardoso publicou a íntegra do seu manifesto em um blog criado especialmente para isso. Foram mais de oito mil visitas em uma semana, com centenas de comentários. Além do texto lido no Cine Odeon, o ator publicou trechos do original, que foram retirados para que se discurso não ficasse muito longo.
Leia o manifesto aqui.


* Do Sentidos ~ Giovana Damaceno



Café com leite, pão com manteiga e bom humor*

Chego ao balcão da padaria e espero menos que 10 segundos. A atendente, lavando copos, me abre um sorriso do tamanhão do rosto dela: “Boa tarde, pode falar!” Já surpresa diante de tanta simpatia, peço um café pingado e um pão com manteiga. Tenho poucos minutos para driblar o apetite enquanto espero o horário da minha consulta no prédio ao lado. A padaria está cheia, como sempre. Ainda mais numa tarde fria, perfeita para um café bem quentinho e um pão fresco. E as meninas, as atendentes, numa felicidade que nunca presenciei.
Freqüentei essa mesma padaria um tempo atrás, quando trabalhava perto. Só tomava meu café ali porque o pão era (e ainda é) muito gostoso e eu estava sempre atrasada, portanto, era mais prático. Com o meu bom humor de sempre, chegava, dava aquele sonoro bom dia e o que eu recebia em troca era um olhar fulminante da balconista. Todos os dias. Em silêncio ela arrumava meu pão com manteiga, meu café com leite, colocava-os em cima do balcão e virava as costas. Ao sair, sempre me despedia e até hoje não sei se ela fingia que não escutava.
Em quase todos esses lugares é mais ou menos a mesma situação. Pessoas mal humoradas, tristes, mal pagas, mal tratadas pelos patrões, desrespeitadas de várias formas, acabam revelando suas dores e amarguras por meio de suas expressões (ou falta delas). Já vi das piores caras em diversos tipos de estabelecimentos, de supermercado a sorveteria, de manicure a floricultura, de loja de tintas a botequins, de clínicas médicas a restaurantes.
E eis que depois de muito tempo volto àquela mesma padaria e encontro um ambiente totalmente anormal, se comparado ao mau humor comum que reina no comércio e na prestação de serviços (salvo raríssimas exceções). Três balconistas sorridentes, conversando, cantando, brincando entre si e com os clientes, tratando as pessoas pelos nomes. Eu e uma mulher ao meu lado nos olhamos, sem acreditar no que víamos. “Nossa, gente, quanta felicidade nesse lugar”, ela disse. E lá de dentro veio esta: “É assim mesmo, trabalhamos sempre assim. Olha lá no caixa. A outra fica reclamando da gente, mas ela queria mesmo é estar aqui, rindo e cantando também, mas não pode”, brincou a balconista.
Saí da padaria rumo ao consultório médico tentando imaginar como seria a vida de cada uma daquelas mulheres. Com certeza, não muito diferente da vida de todas as outras e outros que são empregados neste tipo de estabelecimento. Madrugam para trabalhar, ajudam a família no sustento da casa, ou sustentam filhos sozinhos, fazem jornada tripla, ou quádrupla, ganham um salário daqueles que a gente praticamente paga pra trabalhar. Enfim, têm problemas como todo mundo e, por isso, teriam o direito a viver de cara feia, como todo mundo. Mas não. Fazem justamente o contrário e nem sei se têm consciência de que desta forma realmente conseguem tornar seus dias melhores. Só sei que conseguem.
Na verdade, naquele dia eu estava com um problemão na cabeça e foi extremamente reconfortante tomar aquele café com tanta alegria a minha volta. É isso aí. Nunca sabemos se quem está por perto precisa de uma palavra de carinho, apoio, sei lá. E ao sentir toda aquela energia positiva, concluí que nem tudo está perdido, mesmo. Seja qual for o motivo que possa me deixar de ‘bico’, a melhor solução, sempre, é encarar a vida com bom humor, já que cara feia não traz solução pra nada.

*Lá do Crônicos


O homem e a máquina*

Se a internet trouxe muitas facilidades para o dia a dia da comunicação ela também gerou alguns infortúnios que a sociedade ainda não sabe como lidar. Os exemplos são muitos: casos de pedofilia, golpes bancários, problemas com direito autoral, conspirações para planos de assassinato e até contato entre os presos via rede. Mas, existe um outro dano um pouco menos visível conseqüente desta comunicação virtual: a mudança nas relações humanas e no comportamento social. Por ser tão democrática e encurtar distâncias em questões de segundos, a internet tornou-se um mundo paralelo, onde se vale tudo e qualquer um pode jogar. Na rede, não há RG nem CPF. Você pode ser quem quiser e passar a vida à sombra de seus personagens.
Atualmente, é possível fazer quase tudo pela rede e às vezes me pergunto como o mundo funcionava antes de seu invento. Lembro-me das pesquisas de colégio feitas naquelas enormes enciclopédias, com linguajar quase indecifrável e que nem sempre encontrava tudo o que queria. Hoje, com uma única palavra no Google, podemos ter a ficha completa sobre qualquer assunto, mandar um copy/paste e o trabalho está completo. Lembro-me também do tempo em que escrevia cartas e cartas à mão para mandar notícias pra família durante meu ano na Austrália. Era o início da era virtual e foi quando fiz o meu primeiro e-mail. Desde então, nunca mais escrevi cartas.
Diante da tela do computador quebraram-se barreiras e a velocidade da informação nos bombardeou com milhares de novidades por minuto. Mas, esta facilidade tão grande promovida pela navegação vem transformando em muito os hábitos sociais. As pessoas num mesmo recinto se comunicam por chats. O diálogo passou a ser pelo teclado. As relações se limitaram às telas. Ao invés da conversa ao telefone, parabenizamos amigos por e-mail, resolvemos relações amorosas por messengers, e a conversa ao ouvido tem se tornado quase extinta. Eu mesma, na minha profissão de assessora, já fiz jornalistas amigos apenas pelas trocas do correio eletrônico. Nunca vi seus rostos, nunca escutei suas vozes, mas trocamos diariamente informações como se troca com alguém da família. E quando menos se espera a intimidade se fez ali, por um nome de remetente e um destinatário.
Confesso que adoro a tecnologia e a praticidade que a internet fornece, mas fico extremamente assustada quando vejo jogos como o Second Life fazendo tanto sucesso. Para quem não ouviu falar trata-se de um jogo de relacionamentos “interpessoais”, em que você adquire uma vida real no mundo virtual, com trabalho, renda, casa, etc. O jogo possui uma moeda própria, o Linden dollar (L$), que pode ser convertida em dólares verdadeiros, respeitando a sua cotação no dia corrente (a cotação atual é de aproximadamente 1 Dollar para 300 Linden Dollars). As possibilidades de enriquecimento são variadas. Pode-se construir objetos, comprar e vender terras, construir imóveis, desenvolver assessórios para avatares (este é o nome dado ao homem dentro do jogo), trabalhar para outros avatares e por aí vai.
Como o próprio nome do jogo sugere, entrar no Second Life é como viver uma outra vida, porém virtualmente. Desta forma, o sucesso obtido na sua carreira virtual influi diretamente na vida real. E assim, as pessoas vão se aprisionando cada vez mais neste mundo “fechado”, frio e ilusório. Um mundo em que os sonhos tornam-se facilmente reais, dando a falsa a impressão de que isso te realiza na mesma proporção. A sensação que tenho é que o homem criou as máquinas para lhe servir, mas agora quem as serve somos nós.

* Do Molhando as Palavras

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