quinta-feira, junho 10, 2010

A dor da sobrancelha

Ela parece estar ali para enfeitar. Quer ver? Responda rápido: pra que serve a sua sobrancelha?
Se, em 5 segundos você não conseguiu bolar uma resposta científica nem trazer à cabeça outra resposta que não tenha sido: "não sei", "pra nada" ou simplesmente nenhuma outra, é porque não há função. E se não há função, admita que ela está aí só pra enfeitar, vai...
E se não tiver admitido ainda, pense em como ficaria sem ela adornando a parte superior dos seus olhos. Pensou? Viu como ela enfeita mesmo?
O caso é que, até pra enfeitar pura e simplesmente, ela precisa nos fazer sofrer. Pelo menos a nós, meninas, claro. Duvido que alguém aí entre os meus três leitores (e os outros milhares de leitores (as) de outros blogs) duvide disso. E se não há dúvida, há consenso. E se há consenso... nem preciso mais me ater a este fato e posso voltar ao sofrimento que transformar a sobrancelha em um enfeite agradável de se olhar nos proporciona (sim, porque ela pode ser um enfeite desagradável de se ver, como em um montão de gente que todo mundo conhece).
Agora, um questionamento pessoal, de curiosidade mesmo: você, que sofre para deixá-la bonita, consegue expressar a dor que isso causa, em palavras? Sim, porque em caras - e bocas - eu sei. Faço isso duas vezes por mês.
Vamos lá... coloque a cabeça pra funcionar e tente traduzir em palavras como é, exatamente, a dor que sentimos.
Sempre que alguém me pergunta se "tatuagem dói" (e esta pergunta é ouvida mais vezes do que a minha mãe jamais ouviu se "parto normal dói") e eu respondo: "Dói, mas é suportável". "Ah, mas suportável quanto?", eu ouço invariavelmente a seguir.
Se for uma menina, eu digo o seguinte: "Você faz depilação com cera? Pois é, dói mais que tatuagem. Ou seja, é suportável". Algumas delas aceitam a comparação, outras não. Às que não aceitam, eu tento outra: "Imagina sua pele sendo rasgada por um caco de vidro. Imaginou? Tatuagem dói assim".
Sei que esta segunda não é tão fácil de ser imaginada quanto a primeira, mas como depois de ouvi-la, ninguém mais pergunta nada e só faz uma cara de pânico, eu parei por aí nas invenções de comparações com a dor da tatuagem.
O caso é que eu não consegui ainda definir a dor da sobrancelha. Com pinça, que fique bem claro.
Nunca tive um filho de parto natural. Dizem que, nas mulheres, esta é a pior dor que se tem notícia.
Nunca sofri infarto do miocárdio nem crise renal. Segundo a medicina (li isso em algum lugar) são as duas piores dores.
Portanto, não posso comparar.
Já caí e quebrei o braço. Já tive uma perna quebrada depois que um banco de madeira caiu sobre ela.
Já levei ponto na testa. Isso dói pra caramba, talvez porque não tenha tido anestesia... pelo menos não que eu me lembre.
Já levei ponto no dedo da mão.
Já caí (ou voei, como queiram) de um carro andando, depois que a porta do carona abriu. E não, isso não foi nada engraçado, como com certeza você imaginou.
Já apanhei do meu pai de vara de marmelo. Doeu horrores, mas pode ter sido porque eu era criança e isso transforma todas as dores nas piores dores do mundo.
Todos os meses eu sofro de cólicas. Coisa de mulher... mas que me faz chorar, invariavelmente.
Já fiz tatuagem (e falei disso neste post, né?). No pé, que dizem que é o lugar que mais provoca dor.
Já passei por outro montão de coisas que provocam dor... mas ainda não arranjei uma para comparar à da sobrancelha. E hoje eu tava lendo um livro e a personagem principal estava descrevendo a sensação de modelar, com pinça, a sobrancelha. O trecho, inclusive, me deu a ideia de expor isto aqui no brog.
A descrição dela começa depois que a "Madame Anoushka, uma russa branca e fria, colocou um pouco de cera quente nos supercílios dela. A sensação trouxe à memória Maggie alguma coisa do passado da qual ela não gostava muito de se lembrar. E aí começa então:
"... então, felizmente, Madame Anoushka arrancou de uma vez só a tira da cera que aplicara e a agonia foi tão grande que apagou as lembranças. O processo todo foi absurdamente desagradável. Cada vez que Madame Anoushka usava a pinça, era como ser atacada por milhares de dardos microscópicos, meus olhos se enchiam d'água e eu ficava inquieta, com uma vontade perigosa de espirrar (...). Depois de séculos, o frenesi das pinças passou para a outra sobrancelha e foi, se é que era possível, pior do que a primeira. Eu já estava rezando para a coisa toda acabar".
Depois disso, segue a descrição dela.
Eu gostei tanto de "era como ser atacada por milhares de dardos microscópicos", que precisava compartilhar isso, mesmo nunca tendo sido atacada por milhares de dardos microscópicos. Achei que o trecho definia bem, pelo menos ao meu ver e ao meu jeito de sentir dor, o que é mexer na sobrancelha. Com pinça.
Se bem que eu prefiro me dar o direito de experimentar ser atacada por milhares de dardos microscópicos, antes de eleger esta a definição para a dor da sobrancelha com pinça.

3 comentários:

Thaissa Costa disse...

eu até durmo tirando sobrancelha. Sinto doer muito não...quase nada na verdade. Mas a mesma serve para evitar que as gotículas de suor caiam nos olhos. Ou seja, servem para proteger nossos olhos.

Flavia Resende disse...

Essa é a Thaissa! As sobrancelhas servem para proteger nossos olhos!
E detalhe: além de sentir dor, eu espirro umas 50 vezes nos 15 minutos que a menina gasta tirando os pelos da minha... será que tem algma ligaçào do nariz com a sombrancelha????

Giovana disse...

Também modelo a minha sobrancelha duas vezes ao mês, com pinça; já sofri de cólicas renais; faço depilação com cera; e também já fiz uma tatuagem no cóccix. Tudo dói. Muito. Mas como já passei alguns meses da minha vida sem pelo nenhum acima dos olhos e não gostei do que vi, prefiro a dor de modelar as sobrancelhas.