Incesto na final *
A seleção da Espanha é o Barcelona reforçado, e o futebol do Barcelona é meio filho da Holanda.
Desde os anos 90, quando Johan Cruyff implantou suas ideias sobre futebol no Barcelona, passando por Louis van Gaal e Frank Rijkaard, técnicos holandeses ditaram não só o estilo de jogar do clube catalão como sua política de formação e aproveitamento de jogadores jovens, que deu no Barcelona e na seleção espanhola de hoje.
Dois dos assistentes do atual treinador holandês foram jogadores do Barcelona. O capitão do time holandês, Von Bronckhorst e o meio-campo Van Bommel jogaram no Barcelona. Van Gaal, que treinou o Ajax e a seleção holandesa antes de ir para Barcelona, levou tantos jogadores holandeses com ele, incluindo o grande Patrick Kluivert, que o clube chegou a ser chamado de "Barçajax".
O atual treinador vencedor do Barcelona, Pep Guardiola, era um dos jogadores favoritos de Cruyff. Talvez seja difícil encontrar o DNA da Holanda de Cruyff e dos outros no atual jeito de jogar da seleção espanhola, mas foi decididamente um jogo incestuoso. Antes do jogo, a dúvida era se assistiríamos a um infanticídio ou a um matricídio.
Uma decisão nos pênaltis, aquele momento no futebol em que o homem entrega seu destino aos deuses, teria sido um final mais adequadamente grego para o drama. Mas foi um matricídio lento e doloroso que só se consumou no fim. Quer dizer, grego o bastante.
O segundo tempo foi muito melhor do que o primeiro, porque foi quando o Iniesta começou a jogar, e o Xavi a dialogar com ele. Os holandeses confiaram nos contra-ataques e principalmente na habilidade, na velocidade do Robben, mas estava escrito: a mãe seria a sacrificada da noite.
E, para completar um campeonato em que os erros de arbitragem foram tão importantes, ontem houve mais um. Uma falta batida pela Holanda desviou na barreira, mas o juiz não deu o escanteio. O ataque seguinte foi o do gol da vitória do filho. Digo, do Barcelona. Digo, da Espanha.
O Uruguai ficou em quarto lugar, mas foi o campeão emocional dessa Copa. Além de ser mais argentino do que a Argentina, ou mais raçudo do que qualquer outro latino-americano, incluindo, principalmente, o Brasil, por pouco não empatou um jogo perdido para a Holanda e por pouquíssimo não empatou com a Alemanha e levou a decisão do terceiro lugar para a prorrogação ou os pênaltis.
Aquela bola no travessão do Forlán, no último segundo de jogo, resumiu o que foi a passagem eletrizante do Uruguai pela África do Sul. E deram o prêmio de jogador da Copa ao Forlán. Que nada, deem o de melhor ator de uma série dramática. E prêmios de coadjuvantes para o resto do time.
Mas nada da cerimônia de encerramento, do jogo final ou de qualquer dos dramas, uruguaios ou gregos, vividos durante a competição se igualou em emoção à aparição de um sorridente Nelson Mandela no estádio, ontem. Duvido que alguma outra personalidade, na História do mundo, provocasse a mesma manifestação espontânea de admiração e carinho.
*Por Luiz Fernando Veríssimo, no Blog do Noblat
Foi-se a Copa?*
Foi-se a Copa? Não faz mal. Adeus chutes e sistemas. A gente pode, afinal, cuidar de nossos problemas.
Faltou inflação de pontos? Perdura a inflação de fato. Deixaremos de ser tontos se chutarmos no alvo exato.
O povo, noutro torneio, havendo tenacidade, ganhará, rijo, e de cheio, A Copa da Liberdade.
*De Carlos Drummond de Andrade
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