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quinta-feira, outubro 18, 2018

18 de outubro

Sempre achei o dia 18 de outubro uma data muito bonita. Acho que porque a sonoridade de "18 de outubro" é bonita, combina... quase rima. Mas não só por isso. Quase todos os dezoitos de outubro da minha vida foram de comemoração ao aniversário da Mônica, minha irmã mais velha. Isso fazia do dia muito mais bonito, mesmo depois que ela se casou, mudou de cidade e parou de comemorar o próprio aniversário. Lembro-me de ligar pra ela logo cedo e, em vez de "alô", ouvir "irmããããã!".... era assim que ela atendia ao telefone quando eu ligava. E lembro também de que quando eu ligava de um número que ela não conhecia, ela dizia "pronto". Eu perguntava "pronto o que? Tem bolo pronto aí?". Ela ria.


Isso acontecia no aniversário dela, mas não só. Ela era assim, em qualquer dia, a qualquer hora, não importando como ela estivesse. Isso era bom, fazia bem. Não esqueço da saudade que eu sentia dela, quando morava em Brasília. Várias vezes eu telefonava e pedia pra ela cantar uma música que eu gostava muito. Uma não, duas. Eram duas músicas infantis, mas que eu gostava muito de ouvir quando ela cantava. E ela sempre cantava quando eu pedia. Até hoje, nunca consegui cantar as duas musiquinhas pra Aurora... não consigo. A garganta trava, os olhos enchem de lágrimas.... eu acabo deixando pra outro dia.
E isso passou a acontecer há cinco anos, 38 anos e dois meses depois do nascimento dela. No dia em que Deus a tirou do nosso convívio na terra. Desde então, o dia 18 de outubro ficou mais frio, mais escuro, menos bonito.... mais triste mesmo. A cada ano, coisas novas acontecem em nossas vidas, pessoas novas chegam, alegrias, novas tristezas, perdas, ganhos, trabalhos, sorrisos, lágrimas.... mas aquele sentimento de "não temos mais a Mônica", não nos deixa. Está aqui, sempre. Todos os dias, mas muito mais presente em alguns dias específicos. No aniversário dela, no Natal que ela sempre gostava de comemorar, quando ouço alguns hinos que ela cantava como ninguém e em alguns outros momentos.
Essa semana foi de lembranças. O desenvolvimento da Aurora, cada frase nova que ela forma, as sapequices, as músicas que ela canta.... me fazem sempre imaginar como a Mônica reagiria. Ela amava crianças e sonhava em ter filhos. Aurora e Rachel seriam a felicidade da vida dela. E agora, a Catherine.
Mas Deus sabe de todas as coisas. Ele tem nos sustentado, tem nos mantido de pé, firmes. E tem nos consolado a cada dia também. Aos nossos pais, nossas famílias. E tem nos ensinado também. 
Obrigada, Senhor. Em meio às adversidades, precisamos de serenidade e fé para perceber a vontade de Deus para as nossas vidas.

terça-feira, novembro 13, 2007

Câmbio Hidramático

Essa semana uma fato me remeteu à época que morava em Brasília. Não pura e simplesmente a época da estada no cerrado, mas precisamente ao começo da saga da Andressa, minha produtora e amiga, com a Chevrolet Blazer BLZ 8877.
Antes, porém, de explicar a minha experiência com a Andressa, vou me dizer o que me fez lembrá-la.
O sogro da Mônica (pai do Dôgras, meu cunhado) comprou um carro hidramático. Como todo bom ser humano de 60 anos,o pai do D. não se deu muito bem com o fato de faltar o pedal da embreagem no carro e acabou sobrando para o Dôgras trazer o veículo de São Paulo até Morro Azul. Eu não tava lá, portanto, não tenho a opção de não acreditar no que o D. me disse: que ele próprio sequer percebeu a diferença.
Ta. Eu só disse isso pra ilustrar pros meus três leitores o fato que me fez lembrar a época em que começamos a andar de Blazer hidramática em Brasília.
Era um dia à tarde. Já tínhamos acabado o programa. A blazer foi colocada no pátio da TV Brasília pelo motorista da equipe e a Andressa e eu, que saíamos juntas da emissora quase sempre, não fomos avisadas de que faltava um pedal, de que havia letras para identificar cada “marcha” e que, pior que tudo isso somado, não havia nada de errado.
Entramos no carro, olhamos e como preferimos não arriscar, pegamos o celular para tentar pedir ajuda. Não, não ligamos pro oficial de dia de nenhum batalhão nem para o 190. Ligamos pro Geraldo, pai da Andressa, que ignorou solenemente a nossa chamada. O Nugóli, delegado da Divisão de Operações Especiais da Polícia Civil e nosso amigo, também não atendeu. Não conseguimos falar com o Natalzinho nem com o Cunha. E se vocês estão pensando que nesta época eu já conhecia as Leis de Murphy, estão quase certos, porque nesta época o próprio Murphy já era meu amigo de infância.
A primeira pessoa que me atendeu foi o meu então grande amigo Lúcio Flávio (“então” porque hoje ele não o é mais). Ele explicou o significado das letras e, antes que eu desligasse, ele repetiu quatro vezes: “Flavinha, a Andressa é meio ruim de roda. Diga a ela pra só usar o pé direito. Tanto pra acelerar quanto pra frear. O pé esquerdo não tem função nenhuma”. Eu entendi o que ele disse e depois que desligamos, transmiti o recado pra ela. Você que está lendo este post seguiu o conselho? Pois ela também não. E eu, que não tinha sacado muito bem o porquê de inutilizar o pé esquerdo e sobrecarregar o direito, não demorei a pegar o espírito da coisa (ou melhor, do perigo).
Ela disse que entendeu, mas pra Andressa, entre entender e praticar existe um abismo infinito. Dá pra imaginar o que aconteceu? Se não dá, eu digo: do SIG, o Setor de indústrias Gráficas,onde até hoje fica a sede da TV e do Correio Braziliense até o Sia, o Setor de Indústrias e Abastecimento, onde ficava o nosso escritório, são três quilômetros. Pois em três quilômetros, eu, no banco do carona, ao lado da louca desvairada da Andressa, meti a cara no pára brisas da Blazer pelo menos 14 vezes. Sim, 14 vezes. E este número é perfeitamente explicável: numa cidade como Brasília, em pleno Plano Piloto, num horário com trânsito calmo (eram quase três da tarde), ela só precisou frear nos semáforos fechados. E 14 é o número de semáforos que há do SIG até o Sia.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Duas armas no cachorro quente

A noite sempre acaba cedo nas cidades satélites. Cedo pras pessoas normais, que não trabalham como os vigias noturnos (o meu caso). Todas as noites, lá pelas 3 da manhã, nós queríamos comer alguma coisa e encontrávamos o mesmo problema: onde e o que comer? Quando a gente estava em matéria pelo Plano Piloto, nem era difícil. Pelos arredores dos Ministérios ou da Praça dos Três Poderes, sempre tem uma lanchonete ou um vendedor ambulante. Em Santa Maria, Planaltina, Sobradinho ou no Gama, a questão era um pouco mais difícil. Se a equipe estivesse em São Sebastião ou em Brazlândia, pronto! (Desculpa, Jorge... mas é verdade)! Era sinal de que teríamos que torcer pra acabar a matéria rápido pra sair logo do fim do mundo, digo, dali ou iríamos ficar com fome até o dia amanhecer e as padarias começarem a abrir.
Para a felicidade geral da equipe, na madrugada daquele sábado a gente estava em Taguatinga. A equipe do sargento Jesiel tinha prendido uns caras que usaram uma kombi pra assaltar quatro rapazes no lado sul da cidade. Os presos, depois de roubarem dinheiro, cartões de crédito e telefones celulares, ainda roubaram suas roupas. Seria cômico - se não fosse trágico - encontrar os amigos só de cueca na 21ª Delegacia.
Eu era (e sou) amiga dos policiais da guarnição e toda matéria com eles (e com todos os outros que o relacionamento de amizade existia) era divertido. A gente brincava, ria, contava piadas e na hora de ir embora ninguém queria ir. Nessa noite, como o flagrante seria demorado por ter quatro vítimas, cinco rapazes presos e um monte de objetos pra relacionar na ocorrência, nós os deixamos na DP por volta das 2 e meia da manhã. Com fome, óvio! (oh o “óvio” aqui de novo). Como era madrugada de sábado, tinha muita gente na rua saindo das boates, jovens andando em grupo e muitos deles fazendo zoeira pela cidade.
Fomos nós para o nosso ponto de encontro em Taguatinga: a Rua das Palmeiras, uma rua comprida, com um canteiro no meio, separando as duas mãos. Neste canteiro, de uma esquina à outra, vários trailers de lanches. A gente só comia num deles, sempre. O cachorro quente do Fábio era o nosso “point” quando estávamos em Tagua York, como o povo chama a cidade (Olha pra esse projeto de mapa aí embaixo.... o cachorro quente do Fábio fica em algum lugar aí).


Todo mundo já conhecia a gente. O povo do Barra, que chegava muitas vezes com o dia amanhecendo, pedia sempre o mesmo lanche, a Flávia com a doideira da Coca light quente que ninguém nunca acreditava, enfim. Nós éramos conhecidos e bem tratados naquelas bandas.
As mesas e cadeiras estavam cheias. Não demorou para que os meninos providenciassem um lugar pra nós e como eles sabiam que nós não podíamos ficar muito “expostos” por causa do equipamento que o cinegrafista carrega pra onde quer que vá, ficamos mais ou menos escondidos, mas ainda sob a vista das pessoas que estavam por ali.
Já estávamos lanchando quando dois carros pararam no estacionamento do Fábio. Num deles, uma Parati prata, dois rapazes negros, grandes, bem vestidos e uma moça lourinha. No outro, um Audi, três caras claros, menores que os negros e duas garotas. A impressão que eu tive era de que eles vinham de algum lugar juntos, apostando corrida pelo caminho. Pelo tumulto que eles causaram e pela felicidade dos negros ao chegarem, foi isso o que eu entendi. Todos saíram e se cumprimentaram. Não eram cumprimentos de pessoas que se conheciam. Outra vez essa foi a minha impressão.
Os dois grupos sentaram-se cada um numa mesa e eu nem dei mais atenção. Já passava das 3 horas da manhã.
A nossa noite de trabalho não iria muito longe mais. A essa hora pouca coisa acontece, a não ser que seja o desfecho de alguma que começou mais cedo. Afora isso, não é regra, mas dificilmente alguma coisa relevante ocorre. Mas eu nem estava pensando em parar por ali. Tinha que escrever a matéria do roubo, que estava apenas esqueletada com as sonoras e a passagem e faria isso na redação.
Ensaiávamos ir embora quando ouvi um tumulto do lado oposto ao que eu estava. Olhei e percebi que os rapazes que haviam chegado depois, do Audi e da Parati, estavam discutindo. Foi como se ouvisse o meu pai dizendo: “De madrugada na rua, se não é polícia ou o cara que ta vindo do trabalho, é o que? Gente à toa, atrás de confusão”. Sério que eu ouvi a voz dele repetindo isso, como fez a vida toda com as filhas.
Olhei para o Wagner e o Alexandro e eles entenderam que era hora de ir embora. Eles se levantaram, me esperaram juntar as minhas tralhas e fomos pro caixa pagar a conta. O caixa do Fábio ficava à frente de tudo, numa posição que eu, pagando a conta, ficava de costas para o espaço onde ficavam as mesas e cadeiras. Para que eu visse o que estava acontecendo, tinha necessariamente que me virar. Olhei pro Marquinho, o rapaz que estava no caixa essa noite e lancei a minha frase de todas as noites: “Se eu fosse pagar, quanto seria?”. Olhei pra ele e vi que o rapaz tava branco como papel. Nem demorei pra entender. Virei e olhei na direção que ele tava olhando e vi o mesmo que ele: os dois rapazes da Parati, os negros, estavam sentados, e um exibia uma pistola para os outros rapazes, os de pele clara que chegaram no Audi. Eu estava uns 20 metros distante deles. Tirei uma nota de 20, dei pro Marco e saí.
Ta pensando que eu entrei no carro e fui embora? Uma repórter policial jamais faria isso. Encostei no carro, que graças a Deus não era a Blazer identificada que a gente rodava normalmente, peguei o celular e liguei pro Jesiel, o sargento da ocorrência do roubo que eu tinha feito naquela noite.Ele atendeu e eu expliquei tudo. Ele me pediu que ficasse longe (dããã... e acreditou quando eu disse que ficaria!) e que o esperasse chegar (isso sim eu disse que faria e ele bem que poderia ter acreditado, pois isso eu faria!). Fiquei por ali e, dois minutos depois que eu desliguei o telefone... a surpresa! Não foi a viatura que chegou, mas os caras da Parati pagaram a conta e vieram pro carro deles, pra ir embora. Caraca! Eu não podia deixa-los escapar (oh o Entrei no meu carro, no banco de trás, mandei que o Alexandro os seguisse, que o Wagner filmasse tudo com a câmera portátil e liguei de novo pro Jesiel.
- Mermão, os caras tão saindo daqui. Oh, eu to indo atrás deles. Estamos saindo da avenida das Palmeiras e pegamos a principal.
- Fravinha (o Jesiel adorava me chamar assim desde que eu disse que framenguista não tinha dente), isso pode ser perigoso.
- Perigoso o que, ô framenguista? Ta doido? Eles nem me viram! O Wagner ta filmando. Oh, entramos na rua de P12 (a 12ª Delegacia de Taguatinga Centro) e eles estão indo praquela rua onde o Chaves foi preso (era uma forma de identificar a rua pro Jesiel, porque o nome dela eu não sabia messsmo, nem tinha como saber!).
- A gente ta chegando aí. Ele vai sair pra que lado, dá pra saber?
- Dá. Ele vai pegar a esquina da direita e vai sair lá no final da avenida das Palmeiras.
- Ta bom. Fica longe que eu vou abordar a Parati no fim da rua. Fica longe, hein, Fravinha?!
- Fico, claro. Pode deixar que eu fico.
Você ficou? Nem eu, claro. A Parati seguia seu caminho, com os vidros abertos, os rapazes com os braços para o lado de fora e o Wagner filmando calda movimento. Calculei mais ou menos o local onde o carro seria abordado, pedi que o Alexandro parasse o carro e troquei de lugar com o cinegrafista. Pluguei o microfone na câmera portátil e fiz a passagem da matéria em linha, narrando os acontecimentos. Eu sempre me dei bem nas disciplinas de cálculo na época de escola, mas nunca nenhum tinha sido tão preciso quanto naquele. O meu texto terminou exatamente na hora da abordagem e saímos do carro direto para acompanhar o momento da revista. Os caras estavam do lado de fora do carro, os documentos da Parati sendo verificados pelo Isaac, e o sargento olhando o interior do veículo. No compartimento atrás do banco do carona ele encontrou a pistola de calibre .380, embrulhada num pedaço de pano.

Filmamos tudo.
Uma apreensão de arma é sempre uma apreensão de arma. E você pode estar pensando: "Granaaande descoberta"... mas o fato é que quem nunca fez jornalismo policial ou nunca estudou a teoria da Segurança Pública não tem noção da importância de uma ocorrência como essa. Significa menos uma arma em mãos erradas. É, erradas sim. Porque se estivesse em mãos certas não estaria sendo exibida àquela hora da madrugada, numa lanchonete!
Dali fomos pra Delegacia “proceder no flagrante” (linguagem altamente policial, né? Eheheh). Essa era a parte chata...
O delegado de plantão era o PC. Boa gente toda vida. Pra ele nós contamos toda a história, mas só pra ele. Na ocorrência, eu não fui arrolada como testemunha. Além de ser uma encheção danada ter que ir depor em juízo na ocasião do julgamento, ficar ali esperando o término do flagrante era tudo o que eu não queria.
Nessa época, a pessoa presa com arma de fogo já assinava flagrante e ia pro presídio. O artigo 10 era recente e a partir dele, a pena prevista para o porte ilegal de arma era de 2 a 4 anos de cadeia, com a pena aumentada de um terço à metade para o caso de a arma estar com a numeração raspada ou adulterada e para o caso de arma de calibre de uso restrito, como a 9mm. Meses antes, seria diferente: eles assinariam um termo Circunstanciado e iriam pra casa no mesmo dia.
Eu, como tava fora do flagrante, terminei de fazer essa matéria com o dia nascendo. Pra ter uma idéia, fiz imagens do trailer do Fábio às 5 da manhã, e se demorasse mais um pouquinho, seria dia claro.
A matéria ficou legal, com imagens de tudo o que eu disse no texto. Digna de elogios...

sexta-feira, agosto 03, 2007

Jorjão é mal - A Missão

Os carros pretos pararam. A voz do Panisset anunciando a abordagem e, do nada, um homem que vinha acompanhado de duas mulheres, em direção ao “acontecimento”, virou-se e saiu em “desabalada carreira” (a propósito, não gosto desse termo, mas achei que caberia aqui....). Alguns policiais começaram a dar tiros pro alto para tentar evitar que tivesse início uma fuga generalizada. Outros, atiravam em direção ao homem que corria. Era tiro que não acabava mais! Tiros que ninguém podia imaginar de onde vinham nem para onde iam.
Rapidamente o Panisset e o Jorge, que estavam afastados das pessoas sendo abordadas, saíram atrás. Num pique que eu não conseguia imaginar se algum dia eles conseguiriam parar, com as pistolas em punho, atirando sempre que podiam e não colocavam em risco a segurança de outros.
A única coisa que me lembro ter feito foi gritar pra Cíntia correr atrás. Nessas horas a gente só quer o flagrante, nem pensa no tamanho do sacrifício.
Hoje, as imagens gravadas falam por si. Dá pra ver com clareza. Em certo momento, o Jorge correndo, o Panisset correndo e gritando: “Pára! Pára que vai ser melhor pra você!”. E o cara nada de parar. A impressão que eu tenho hoje, assistindo as imagens, é de que aquela perseguição não ia acabar nunca e a Cíntia, que tava lá correndo junto, diz o mesmo. O caso é que quando a gente imagina isso, acontece o inesperado (é, porque só seria previsível se fosse eu que estivesse correndo na frente).
Três quilômetros depois do começo da Cooper, digo, da perseguição, como um pedaço de pau, cai no chão o perseguido (huahuha!!). O Panisset já tinha parado de correr e tava uns 800 metros atrás, colocando os pulmões para fora. O ritmo da corrida era tão intenso que o único sobrevivendo, o Jorge, demorou pra entender que o cara tava caído no chão, exausto. Quem vir a fita vai entender isso que eu to dizendo! Não era São Silvestre nem atletismo em último dia de Pan, mas o Jorge simplesmente pulou o corpo do cara e continuou correndo. Ta bom... eu sei que ele continuou correndo pra não parar bruscamente. Ele sabe que isso faz mal à musculatura.
Ele correu mais uns 50 metros à frente, olhando pra trás, como se quisesse dizer: “Calma, já to voltando”. Quando parou, teve que voltar correndo, antes que o fujão recobrasse o fôlego e voltasse à maratona.
O homem foi imobilizado, algemado e revistado. Daí veio a surpresa maior. Ele não estava armado e não havia nada sob seu poder que justificasse toda aquela correria. Os policiais perguntaram se ele havia jogado a arma fora durante a fuga e ele disse simplesmente: “Só falo na presença do meu advogado”.
Sabe o que isso significa? Confissão de culpa. E o que se faz nesses casos? Leva o cara pra DP, algemado, no cubículo da viatura. Sem chororôs. Sem reclamação.
Ta bom. Meia hora depois, eu já tava quase ligando 190 pra denunciar o sumiço dos três, mais o fugitivo, quando aparecem os dito cujos.
O cara, todo sujo de terra. O Jorge segurando as mãos algemadas dele. E o Panisset.... Ah, o Panisset vinha junto esbravejando como um louco, muito puto da vida por te corrido tanto e o cara não estar nem com uma “arminha”.
Ta bom. Embarca o cara no cubículo e bora pra DP.
Quando as viaturas do Bope adentraram o pátio da 20ª Delegacia, parecia que a Fagama tinha sido transferida de local.
Como não tivesse entendido nada, o Panisset me autorizou a puxar todos os meus fios, ligar todos os meus spots, montar todos os meus paus de luz para filar o fujão saindo da viatura. Eu sabia que se não houvesse nada contra o cara, eu nem poderia usar as imagens, mas não podia também correr o risco de perder a chance. E se ele fosse um assassino em série procurado na Inglaterra? Ronald Biggs era, ow!
T
a.
Estamos no liga-liga na delegacia, quando eu entendi pelo zunzunzun que a Fagama na DP era, na verdade, toda a família do corredor, que tinha sido acionada por alguma espécie de rádio e tava lá, pronta para defender o pobrezinho.
Até aí, nada demais. Eu percebi quem eram eles antes de eles perceberem quem era eu. E não demorou muito para que percebessem. E depois que perceberam, queriam impedir o meu auxiliar de terminar de montar o circo, digo, de ligar todas as luzes, queriam que a Cíntia (com toda a brabera que eu falei dela no começo do post) parasse de filmar.... e mais um monte de “queriam”.
E é neste momento que todo mundo vai entender o título deste post!!! Entrou em ação o cara que, até este momento, era chamado de Jorge (porque a partir deste ele começou a ser chamado de Jorjão é Mal). Antes que o cubículo da viatura fosse aberto, e o fujão fosse visto, “baixou” o novo homem no meu amigo!
“Minha senhora, o cidadão vê a polícia, foge, faz a gente correr meia hora atrás dele, tenta nos agredir a nós, homens de bem que zelamos pela sua segurança, se irrita quando a gente pergunta se ele dispensou alguma substância ou objeto de uso proibido, e quando a gente chega na delegacia, ainda tem que aturar a mãe dele, querendo impedir o trabalho da imprensa? Ora, me poupe. Se quer reclamar, procure a justiça contra ela. O nome dela? É Flávia Anastácio e provavelmente a cara do seu filho vai estar na Rede 21 amanhã, entre 13 e 14 horas. E se quer processar a algum de nós, estes homens da lei que só querem zelar pela sua segurança, o caminho é a Corregedoria. Quer que escreva?”
Quem ta lendo essa citação não tem noção da transformação no rosto do Jorge. Sério! Ele é um cara centrado, de olhos verdes compenetrados que quase nunca sai do sério. Pelo menos nunca tinha saído, não na presença de mó galerão.
Ele falava com uma autoridade e um tom de voz inacreditáveis. Tão inacreditáveis que quando ele terminou de pronunciar o “quer que escreva?”, a mulher já tinha dito “não senhor, desculpa senhor” com os olhos.
Tudo ficou bem depois disso. É, porque o homem que tava no cubículo nunca tinha estado numa delegacia antes. Foi solto logo depois. A única coisa que ele teve que encarar foi a cara do Jorjão é Mal, com muita raiva, e a cara de todos os outros 15 homens do pelotão. Cada um tinha um motivo, mas é fácil supor qual o motivo da maioria: explicar o destino das cápsulas deflagradas no tiroteio da noite.

Jorjão é mal

Mais uma ronda como outra qualquer. O fato de a nossa equipe estar acompanhando o 3º Pelotão de Patamo já não era novidade. Nem pra gente, nem pros policiais e nem pra comunidade... que depois de nos vir sempre colados numa equipe de polícia, já até procurava o carrinho do Barra para ver se teria a oportunidade de ver a gravação de alguma matéria pra TV.
Era noite de sexta-feira e a bola da vez era a cidade do Gama, distante 40 quilômetros de Brasília. Não consigo me lembrar o mês, mas sei que era o fim de semana de uma festa tradicional na cidade, dessas que param as ruas, trazem cantores que congestionam todo o trânsito seis horas antes do início do show... e daí pra lá.
Quando chegamos à cidade, por volta das 9 da noite, os rádios das viaturas pretas do Patamo, comandadas pelo Panisset, um amigo pessoal, copiou uma informação comum naqueles lados (e muito mais em dia de festa). Alguém havia denunciado ao 190 que teria um camarada armado circulando pelo centro da cidade.
A minha cinegrafista era a Cíntia... uma garota loura, braba que só, goiana do quadradinho sem tirar e nem pôr, que agüentava os sete quilos da BetaCam no ombro numa boa. Isso aí pra não dizer que chamava a atenção de todo mundo... por ser loura, por ser mulher, por ser cinegrafista, por ser inteligente, bem humorada... essas coisas que eu exijo de quem anda comigo (eheheh). Como soubemos que havia alguém armado e as chances de os homens do Patamo o descobrirem rapidamente eram enorrrrmes, eu avisei pra ela: “Cíntia Maria, encosta a BetaCam e usa a câmara portátil, pra gente não perder nenhum lance”.Eu sempre fazia isso quando havia a possibilidade de algum flagrante. A Beta é pesada, grande, desconjuntada e a qualidade da imagem é baixíssima quando não há iluminação artificial. Naquele caso, este era o caso. Era noite e nós não teríamos chance de iluminar nada com os spots caso houvesse algum flagrante.
Pois muito bem. A C. pegou a camerazinha, sentou-se no banco do carona do carro da equipe e pôs-se a filmar todos os passos dos homens do Patamo. Eu tava no banco de trás da viatura que ia na frente de todas, a viatura do tenente, comandante da operação. Estavam nela além do Panisset, o Botelho ao volante, o Jorge – amigo de todas as horas – atrás do tenente e o Fábio Soares atrás do motorista. Eu, entre os dois, sacolejando pra cá e pra lá conforme o Botelho dirigia com emoção (sempre que eu tava ali ele preferia dirigir com emoção....).
Os caras abordaram um tantão de gente. A denúncia era de que haveria um cara armado. Se havia um cara armado, encontrar esse cara e apreender essa arma era o que devia ser feito.
Eu já tava me cansando de ouvir tantos: “Polícia. Nós estamos aqui para garantir a segurança dos senhores. Poderiam, por favor, encostarem-se naquele muro, com as mãos na cabeça e as pernas afastadas uma da outra, para que os meus homens procedam na revista?”. De vez em quando surgia uma novidade. Uma mulher que tava na rua, lá pelas duas horas da manhã, gritando e esbravejando: “Eu conheço os meus direitos! Homem nenhum põe a mão em mim!”. E o Panisset, com toda a calma e amabilidade que com certeza não lhe são peculiares: “Sim, senhora. Homem nenhum vai toca-la. Temos um PFem na guarnição”. E virava-se para a Altamira: “Mira, tem uma mulher aqui. Pode por gentileza, vir revista-la?”. Daí surgia do negrume da noite o maior contraste da face da terra. Uma mulher linda, maquiada, com as unhas perfeitamente feitas, os cabelos louros amarelos soltando por debaixo da cobertura e a farda preta. Ela dizia: “Sim senhor, Tenente”, e virava-se para a mulher chata, que ainda estava meio boquiaberta: “Polícia. Nós estamos aqui para garantir a segurança da senhora. Poderia, por favor, encostar-se naquele muro, com as mãos na cabeça, para que eu proceda a revista? Dê-me a sua bolsa, ela também será revistada”. E todo mundo era revistado... a maior rotina. Bom era quando aparecia uma arma, um pouco de droga (os policiais sempre sabiam como chegar ao local onde tinha mais) ou um mane que se recusava a deixar-se revistar e o negócio lascava!
Naquela noite, porém, isso parecia que não ia acontecer.
O rádio continuava anunciando que outras pessoas haviam denunciado o indivíduo armado ao 190.
Tinha muita gente na rua. Se não me engano, a festa chama-se Fagama...
Às 2 da manhã, as pessoas pareciam ir pra casa. Andavam em bandos e iam quase todas na mesma direção: a do ponto final dos ônibus, onde provavelmente partiriam conduções para boa parte das cidades satélites.
Eu estava esperançosa. As viaturas andavam em comboio e todo homem armado que se preze, no mínimo, correria ao avistar as assustadoras barcas do Patamo. E era a isso que eu me agarrava. Eu falava isso sempre. “Ah, se correr, pode ir atrás que ele vai estar armado ou com coisa pior!”. Os policiais nem diziam nada. Eles me conheciam e sabiam que eu não ia ficar quieta mesmo...
De vez em quando eu ligava pra Cíntia pra pedir que ficasse atenta, porque se estavam demorando a encontrar a arma, era porque a hora de encontra-la tava chegando. E invariavelmente ela dizia: “Ah, é fácil falar. O Edson não dá conta de acompanhar as viaturas! Eu só consigo filmar as abordagens atrasada!”. Na última vez que ela falou isso, eu parei tudo, fui lá e a embarquei numa das viaturas. Pronto, agora ela teria o lance inteiro, se é que esse lance viria realmente.
E dois minutos depois ele veio. Sem que ninguém esperasse.
Continua....

sexta-feira, julho 20, 2007

Teodoro e Sampaio na ronda

Algumas cidades satélites do DF têm umas localidades bem assustadoras, eu reconheço. São lugares feios, sem asfalto, algumas sem energia elétrica nas vias públicas, outras sem água encanada ou esgoto, enfim. Lugares que assustam mesmo, tanto pela falta de estrutura quanto pela feiúra em si.
Pois muito bem. Todo mundo sabe que o Bope é uma unidade policial que reúne homens bem treinados, operacionais – uns mais, outros menos – e que aonde chegam, são respeitados. Talvez pela imponência das viaturas pretas ou talvez porque no Distrito Federal a polícia – ainda – é respeitada aonde quer que se vá.
Aqui eu vou falar sobre um comboio de Patamo. Antes porém preciso explicar uns pontos importantes. O Patamo é uma “subdivisão” do Bope, responsável por patrulhar locais estabelecidos pela Secretaria de Segurança Pública. Esses locais são aqueles apontados em pesquisas como localidades com aumento de níveis de criminalidade. Neste caso específico, os homens do 3º Pelotão de Patamo estavam designados a patrulharem o bairro Estância, na cidade de Planaltina, distante 40 quilômetros de Brasília. Até hoje o bairro é tido com um dos mais violentos de todo o Distrito Federal.
Nesta noite, eu e minha equipe nos encontramos com os quatro grifos (assim são chamadas as guarnições, ou seja, eram quatro viaturas e todas andam juntas, por isso o comboio) na entrada da cidade. Sempre que uma localidade era citada na imprensa como palco de crimes, eu fazia questão de acompanhar as rondas do Bope. Primeiro porque era sempre sinônimo de matéria garantida – mesmo que corresse tudo na perfeita normalidade – e depois porque eu era – e continuo sendo – muito amiga da grande maioria dos homens do 3º Pelotão.
Pois muito bem. As noites de sexta-feira e de sábado são as noites em que tudo acontece, são sempre os melhores plantões noturnos da semana. Nossa ronda começou por volta das 19 horas: começo de noite, muita gente nas ruas, bares abertos, carro com som altíssimo ligado nas calçadas e tudo o mais que pode ser “atrapalhado” pela presença dos homens de preto.
Era um tal de pára, aborda, pára, aborda, pára, aborda, que chega a ser chato. Mas eu sabia que tinha que esperar. Alguma coisa ia acontecer. Eu estava embarcada na viatura do zero um (é assim que todo mundo chama o mais antigo ou o policial de patente mais alta. Neste caso específico era o tenente Panisset, “meu melhor amigo”, como eu sempre o chamava) e o cinegrafista vinha no carro da equipe, atrás de todos os carros. Eu gostava de esperar passar das 11 horas da noite, porque sempre era hora de a polícia fechar os bares, porque nessa época vigorava no DF a Lei Seca, e nenhum bar podia ficar aberto após 23 horas. Foi uma solução que o Governo encontrou pra evitar confusão e diminuir a criminalidade. E funcionava!
Tudo o que eu queria era que chegasse a hora de começar a fechar os bares chegou. Ligava pro celular do cinegrafista e avisava que a chapa ia esquentar. Era previsível que haveria problemas, porque em todos os bares que eu acompanhava o fechamento, sempre tinha um bêbado-valente que queria impedir a polícia de fechar o bar, com aquela velha história: “sou cidadão, pago impostos e o dinheiro que você recebe sai do meu bolso”. Só pra constar, poucas coisas irritam mais a polícia que encontrar bêbado metido a valente, bêbado que acha que é cidadão e por isso não pode ser revistado e bêbado que diz que paga os salários deles. A gente sabe que é verdade, mas não é coisa que tem que ficar lembrando, até porque ninguém esquece.
Ta. Voltando aos bares abertos. E, porque ainda não eram 11 da noite.
Como as ruas não tinham asfalto e os motoristas das viaturas de Patamo se destacam por suas habilidades ao volante, a gente sempre andava “com emoção”. Se tivesse asfalto, os pneus cantariam, mas como não tinha, só havia nuvens de terra atrás da gente.
Lá pelas tantas, as viaturas entraram numa rua e já era sabido que naquela rua, uns 200 metros à frente, tinha – mais – um botequim. Até aí, nada demais. Eu não sabia a intenção do tenente, mas ele poderia nem parar pra abordar e revistar o povo que tava lá. A intenção podia ser passar, deixarem-se ser vistos e irem embora. Se o dono do bar tivesse juízo e não quisesse problemas, às 11 ele fecharia o bar e todos viveriam felizes para sempre.
Vimos que o bar estava aberto e que bem em frente ao estabelecimento tinha um rapaz vendendo CDs piratas. Pelo que eu entendi, ele tinha escolhido o “ponto de venda” dele pelo número de pessoas que estavam no bar. Ele tinha uma bicicletinha equipada e fazia o som que embalava a sexta à noite do povo. Certamente ele fazia algum dinheiro ali.
Chegamos perto do bar com as viaturas em velocidade baixa, pra mostrar a presença da polícia. Os policiais saíram, anunciaram a abordagem, pediram compreensão aos presentes e tal. Tudo correu bem. Os policiais embarcaram novamente e estavam prontos pra sair, já com os carros em movimento, quando o infeliz menino vendedor de CD quis “provocar”. Deixe-me explicar. Aqui no Rio, ouvir funk não é provocação, mas em Brasília é. Existe a mística envolvendo o funk carioca e a relação dos vagabundos daqui com a polícia encoraja gente boba como esse menino. Em Brasília o povo gosta mesmo é de ouvir música sertaneja e Banda Calypso. Na moral! Por acaso eu sofria horrores!!!!! Com o Panisset (o comandante da operação) isso não era diferente. Pelo contrário! Ele SÓ ouvia música sertaneja, Banda Calypso, Calcinha Preta e tudo o mais desse tipo. Por isso chamei o menino de infeliz. A gente tinha passado pela frente do bar e já estava saindo da rua, mas... o menino pôs exatamente o trecho de um funk que música que o garoto colocou pra tocar falava exatamente assim: “aqui nem o Bope entra”. Esse funk foi gravado por uns caras aqui na Cidade de Deus e ganhou o país. Tem até cover deles no DF.
Eu vi que a expressão do Panisset mudou e eu até ia fazer uma provocaçãozinha do tipo: “É... tão mexendo com você, viu? Não vai fazer nada?” Mas não deu tempo! O Botelho, motorista, falou: “Ah, não, zero um! A gente não vai deixar vagabundo nenhum fazer a gente de besta. Vamos voltar lá”. O Panisset consentiu, fez sinal com a cabeça e eu quase fui parar do lado de fora do carro, porque mal o tenente esboçou a reação de concordância, o Botelho já tinha feito uma curva inexplicável e tava voltando pro bar. Todas as viaturas fizeram o mesmo.
Em frente ao bar, o Panisset saiu e virou-se pro menino: “Ô peba, ce tem aí Teodoro e Sampaio?”. A valentia do menino-provocador sumiu e deu lugar a uma humildade sem tamanho: “Tem sim senhor”. Era o vendedor respondendo. “Tem Tentei te esquecer”?. “Tem, sim senhor”. “Então põe aí”. O menino nem respondeu. Começou a mexer nos CDs à venda, com os dedos trêmulos e encontrou o tal CD, com a tal música. “Eu quero ouvir Tentei te esquecer”. Era a voz ameaçadora do Panisset. “Sim senhor”, a trêmula do menino.
Segundos depois, ecoava pela rua a música do Teodoro e Sampaio. Todo mundo que tava no bar estava em silêncio. Provavelmente vários deles tinham vontade de esmurrar o “branquelo do tenente”, mas quem ousaria falar alguma coisa????? O mais divertido de tudo foi a ordem do Panisset, antes de embarcar na viatura de volta: “Toda vez que eu passar aqui, você vai colocar essa música bem alta. Se eu ouvir qualquer outra música, eu levo você preso e destruo todos esses CDs aí. Ta entendido?”. Mais uma vez eu ouvi o sussurro de “sim senhor” do menino.
E esse foi só o começo de uma noite looonga de diversão. Pra onde quer que o tenente mandasse o motorista levar a viatura, o Botelho fazia questão de cortar – ou encompridar – caminha e passar pelo menos na esquina do bar. Dava uma ligeira paradinha e víamos o menino todo enrolado, trocar rapidinho o CD e aumentar o volume. De onde as viaturas estivessem, dava pra ouvir a voz do Teodoro: “Tentei te esquecer, não deu. Pensei que fosse mais fortí que esse amor! Oh, minha paixão...”.
Isso aconteceu pelo menos até o menino desistir de ouvir a música, recolher tudo e ir dormir...

segunda-feira, julho 16, 2007

Adendo ao "A vez do Molocotô"

Um grande amigo me chamou a atenção para um fato importante. De uns meses pra cá, muitos dos homens do Batalhão de Operações Especiais estão servindo à Força Nacional de Segurança Pública, no Rio de Janeiro.
O que esse meu amigo me disse faz muito sentido!
Se vários medrosos do Bope estão aqui no Rio, é muito provável que o Molocotô tenha vindo passar uma temporada curtindo uma das sete maravilhas do mundo!
A parte boa dessa história é que os meus amigos que ficaram em Brasília podem ficar tranqüilos, porque não serão incomodados pelo fantasma tão cedo. Mas se aparecer um genérico por lá, que tenham cuidado!!!! Pode muito bem ser o irmão ou o primo do Molocotô, que providenciou uma substituição!

domingo, julho 15, 2007

A vez do Molocotô!

Hoje eu vim pra contar a história do célebre Molocotô. Possivelmente, se você não tem nenhum contato policial em Brasília ou não leu a minha outra postagem sobre “medo de fantasma’, você não sabe quem – ou o que – é o Molocotô. Mas eu explico! O quartel do Bope do DF fica no Setor Policial Sul. Isso nem viria ao caso, se eu não tivesse a intenção de dizer que o setor é um pouco afastado da “civilização” e fica escondido entre árvores, eu até diria que um lugar um tanto mal assombrado, por si só. Pois é. Como todo mundo sabe, policiais de Operações Especiais não ficam zanzando pela cidade como os outros, aqueles que a gente vê de farda cinza. Só por aí já dar pra ter uma noção do que pode acontecer num lugar (com essas características de localização) onde ficam quatrocentos homens aquartelados, sem terem o que fazer. É, porque quem me disser que os caras ficam lendo um livro, ta mentindo! O máximo que eles fazem é correr e malhar... e isso não toma mais que duas ou três horas do dia deles, quando muito! Pois é... e sem fazer nada, dá pra imaginar tudo o que eles fazem, né? Um bando de homem à toa... Pois muito bem. Muitas vezes eu tive oportunidade de produzir matérias noturnas nas dependências do quartel. Os temas dessas matérias, em geral eram relacionados ao treinamento policial deles, mas como esse não é o assunto desta postagem, deixe-me continuar. Numa dessas minhas visitas, já na hora de ir embora, estava eu com a minha equipe na guarda, aquela “cabaninha” que fica na entrada dos quartéis, onde paisano se identifica, quando eu vi dois policiais atravessarem correndo o pátio do quartel, apontando suas pistolas pro nada – pro nada porque eu não sou de ficar vendo coisas por aí... – e um deles gritando: “Agora eu te pego, safado! Agora eu acabo com a sua vida!”. Eu olhei pro soldado que tava dando baixa no meu cadastro com cara de interrogação e tive uma surpresa enorme, quando percebi o pânico nos olhos dele. Sem me responder, ele olhou pra dentro da cabininha da guarda e falou pro outro polícia que tava lá dentro: “Ow, irmão, pega a 12 aí que o cara apareceu de novo”.

Eu, com todo o meu feeling de repórter policial, disse pro cinegrafista: “Alexandre, guarda a Beta Cam no carro e pega a portátil. Tem alguém invadindo o quartel e isso com certeza vai dar merda. A gente tem que ter imagem de tudo”. E na minha cabeça viajei: “Caraca... imagens exclusivas! Putz! Amanhã a imprensa toda vai querer as nossas, somos os únicos a testemunhas um bando de otário tentando invadir o Bope, o batalhão mais temido do DF...”. E fiquei ali pensando, enquanto o Alexandre, ávido por boas imagens e por flagrantes loucos, ia até o carro, deixava a máquina de oito quilos e pegava a portátil, que pesa no máximo, um quilo e meio.
O soldado que estava dando baixa no meu cadastro e apavorado com a invasão, me olhou, incrédulo, e perguntou se a câmera pegava seres de outro mundo. “Seres de outro mundo? Ce ta doido?”, eu perguntei. “Não, Flávia, é que não é vagabundo que ta invadindo o quartel”. Antes que eu pudesse questionar alguma coisa, ouvimos dois tiros. E eram de 12! Ou seja, quem tinha atirado, era o cara que tava na guarda e tinha ido atrás dos outros dois, com a espingarda.
O Alexandre tava gravando tudo, captou o áudio dos tiros e tava pegando imagem do mato por onde os caras tinham se embrenhado. Pois menos de dois minutos depois, quase todos os homens que estavam nos alojamentos saíram pro pátio do quartel.
Mais alguns tiros foram disparados e eu pedindo pro Alexandre pra filmar, que depois a gente entendia tudo. Nessa hora, uma imagem vale mais que mil palavras! Imagina se saem os policiais do mato, carregando os responsáveis pela invasão! Ia ser a imagem do ano!
Outros homens conversaram com o soldado da guarda, que há muito tinha me deixado ali entre outros que iam chegando, sacavam suas armas e adentravam o mato. A parte mais séria – que depois passou a ser cômica – foi quando eu vi um sargento passar por nós com um fuzil. Eu não podia acreditar no que estava vendo. Nessa hora eu ainda pensava que todo aquilo tratava-se de uma “invasão humana”. O Alexandre também viu e me olhou. Nós tínhamos a capacidade de comunicação com o olhar. Ele logo entendeu e pôs-se a trabalhar: embrenhou-se no mato atrás do policial e eu, peguei o braço de um tenente amigo que tava do meu lado e murmurei um “vem comigo”. Ele nem teve chance de questionar e veio me seguindo (ou veio “sendo puxado por mim”, como queira!).
Eu via a luzinha da câmera do Alexandre e ouvia os passos de todos os policiais no mato. E tiros também eu ouvia. Agora eles estavam mais numerosos e com intervalos menores... eheh
Andamos uns três minutos e chegamos ao fim da linha! Todos os policiais que eu tinha visto sair do quartel estavam ali, apontando para o que, a meu ver, era nada. O sargento estava deitado no chão, em posição de guerra (aushahauauuaua), com o fuzil apontado para o mesmo nada de todas as outras pistolas. O meu amigo que eu tinha puxado comigo, virou-se rapidamente e apertou as mãos nos meus ouvidos uma fração de segundos antes do fuzil ser disparado. Mesmo assim o barulho era ensurdecedor.
Houve um burburinho que durou uns segundos e depois todos os caras correram para o “alvo”, no mínimo para ver se tinham acertado alguém. Eu fiquei parada ali, esperando, ainda com o ouvido zumbindo. Passaram-se dois ou três minutos e eu vi os homens voltando, um a um, com caras de derrota. Mais atrás vinha o sargento do fuzil, “amparado” por dois outros PMs. Ele dizia: “Pô, irmão, dessa vez não tinha escapatória. Eu ia matar ele e todo mundo ia passar a acreditar em mim”. Ao que um dos dois que estavam com ele respondia: “Ta bom, fera, a gente acredita que você quase acabou com ele, mas não precisa ficar se lamentando. Ele vai voltar”.
Fiquei ali e me assustei quando vi o sargento chegar perto do Alexandre e perguntar: “Tu filmou tudo, né, Barra Pesada? Bota essa fita pra gente ver aí. Se eu vi, você também gravou o Molocotô. Ele tava bem na minha frente, não tinha como errar o tiro de fuzil!”. O Alexandre olhou pro tenente, confuso e caiu na risada. “Molocotô? Que isso, sargento? Eu queria filmar os caras que tavam invadindo o Bope. Ia ser uma imagem perfeita e amanhã vocês iam pra TV como heróis”. Eu já tinha entendido, mas o Alexandre não.
O sargento olhou pra ele, desolado, e saiu. Acho que ele deve ter pensado que o Alexandre era mais um que não acreditava nele.
Voltamos pro quartel e vieram me contar que em todas as noites de lua cheia, o Molocotô vinha assombrar o quartel, era um fantasma que usava de roupas brancas. Aí era a minha vez de questionar: “Mas não tem lua hoje, o que foi que ele veio fazer aqui?”. O polícia respondeu: “Ele vem sempre que tem vontade de tirar a nossa paz. Mas hora dessas eu mato esse bicho e todo mundo vai acreditar em mim!”
Depois disso, um monte de outras histórias apareceram. Eu mesma ouvi pelo menos uma dúzia. Cheguei a presenciar outra “corrida” dessa e outros tiros algumas vezes, mas nunca fui atrás pra ver do que se tratava, antes de perguntar se era uma invasão humana ou uma invasão fantasmagórica... o que eu queria mesmo era ter visto o Molocotô. Sério! Queria mesmo... essa história teria ficado divertida e eu juraria ter visto, assim como os caras juram! Mas o fantasminha nunca me deu essa chance... vai ver ele tinha medo de ir parar na TV!
Até hoje o Molocotô assombra os homens do Bope e continuo ouvindo as histórias....mesmo estando longe desse tanto!

terça-feira, julho 10, 2007

Trinta e muitos anos e medo de fantasma

Crianças com idade até cinco anos, que se assustam com a idéia de que “se fizerem pirraça vão ser levadas pelo homem do saco” (ou pelo “babau”, ou pelo “abominável homem das neves”....) é um fato perdoável. Não que eu aprove esse tipo de ameaça, mas eu entendo a razão dos pais ao fazê-las. Em Brasília eu até convivi com alguns filhos de amigos, que estavam em fase de crescimento, e que se pelavam de medo ao ouvirem um ou outro nome desses que eu citei ali em cima. Mas não foi só com crianças medrosas que eu convivi em Brasília não. Convivi também com muito homem barbado, que pro trabalho usavam farda (cinza ou preta... eheh), e que pediam pelo amor de Deus pra não passarem numa ou noutra rua, depois de certa hora da noite. Um caso era de um soldado da PM que trabalhava na Ceilândia, a maior cidade satélite do Distrito Federal, distante 40 quilômetros de Brasília. Eu conhecia muito bem todos os componentes da guarnição que trabalhavam com ele. Numa noite eu fui com eles verificar uma denúncia de que haveria três crianças sendo mantidas em cárcere privado numa chácara, num local de difícil acesso, uns 25 km longe do centro da cidade. Só pra chegar lá, nós demoramos trinta e cinco minutos, pela dificuldade de acesso. A estrada de terra, cercada de mato e com muitos buracos foi empecilho até para a X-Terra, o carro que as polícias do DF utilizam. Eu ia com eles dentro da viatura e estava sem a equipe, que viria me encontrar caso a denúncia se confirmasse. A viagem de ida foi meio tensa, já que ninguém conhecia muito bem o caminho e havia também a expectativa do que iríamos encontrar lá. Sem falar que eu estava com eles na viatura, isso é sempre sinônimo de preocupação. Eu ali significava mais cuidado da parte deles, eu era “paisana” (é assim que PM chama quem não é PM!) e a minha integridade física dependeria deles, se alguma coisa ocorresse. Lá na chácara, a denúncia não foi confirmada e depois de algum tempo, era hora de voltar pra cidade. Nós éramos quatro pessoas dentro da viatura (o “medroso” dirigindo, o sargento no carona, eu atrás do motorista e o patrulheiro atrás do sargento). Na saída do beco que dava acesso à entrada principal da chácara começaram os problemas. O A. (a inicial do nome dele... eheh) teve dificuldade pra manobrar a viatura e disse que não saía de ré porque não teria visão perfeita da estradinha e podia ter alguma coisa por ali (por alguma coisa, leia-se algo assustador). No meio da manobra, entre idas e voltas aos pés das árvores que faziam o redor da ruinha, ele viu uma luz em algum lugar, lá no meio do mato. “Luz??? Ce ta doido! Onde vai ter luz ali?”, era eu perguntando. “Flávia, cala a boca pra ninguém ouvir. Eu vi a luz e vambora logo pra ninguém querer ter certeza que não tem ninguém aqui”, era ele respondendo. “Ih, Flávia... deixa ele pra lá. Esse cara tem medo da própria sombra!”, era o sargento intervindo. Pois a frase acabou de ser proferida, e o A. derrapou com a viatura e saiu tirando “fino” do matagal da beira e deixando um rastro de poeira pra trás. Eu ri muito, e nem reparei que ele tava fazendo seqüências de sinais da cruz e murmurando algo inintendível que devia ser, no mínimo, alguma súplica santa. Como não bastasse, ele dirigia rapidamente pela estrada, quando, no breu de quase 3 horas de uma manhã sem lua, duas mulheres à beira da estrada faziam sinais pedindo pra viatura parar. Ele fingiu que não viu o sargento sinalizar para que parasse, acelerou e deixou as duas mulheres pra trás. O sargento mandou que ele voltasse, para seu desespero. “Mas Cláudio, aquilo não era mulher de verdade. Você parece que não entende. São almas penadas, iguais àquelas que acenderam a luz lá na chácara”, só faltou o A. pedir pelo amor de Deus pro sargento não manda-lo fazer o retorno. “Pára, menino! Volta lá, elas podem estar precisando de ajuda”, era o sargento dizendo. “Ah, sim. Ajuda pra voltar pro inferno”. Por tudo o que é mais sagrado (sem trocadilho), o A. falou exatamente essas palavras! Ele fez outro sinal da cruz, engatou a ré e voltou, murmurando outra reza inaudível. As mulheres queriam carona e não conseguiam explicar como estavam ali tão distantes da cidade, àquela hora da noite e sem agasalho, já que Brasília tem clima desértico: calor de derreter durante o dia e frio de bater qualquer queixo à noite. Bem, a mulher mais nova sentou-se entre mim e o patrulheiro, no banco de trás da viatura e a outra, uma senhora bem idosa, com cabelos desgrenhados, descalço e desdentada (pra profundo desespero do A.), sentou-se na frente, entre o sargento e o motorista. Ela era miúda, quase raquítica e coube com facilidade ali. Continuamos conversando, as duas mulheres permaneceram caladas. Eu tinha percebido que a mão direita do patrulheiro era mantida sob a pistola, e ele estava pronto pra revidar qualquer ataque. O sargento também estava atento a todos os movimentos das visitantes, afinal, ninguém sabia quem eram elas e estavam acontecendo alguns atentados contra policiais naquela época em todo o Distrito Federal. Eles atuavam na cidade mais violenta e isso os tornara altamente cuidadosos. Quando faltava cerca de três quilômetros pra chegar à cidade, a senhora que estava na frente pôs a mão no braço direito do A., que estava no volante (porque o esquerdo estava completamente do lado de fora, pela janela que ele fazia questão de manter aberta, apesar dos meus pedidos pra que fechasse). Gente... foi uma das experiências mais divertidas da minha vida, olhar pelo retrovisor e perceber o desespero do A., olhando pro nada e forçando pra manter a atenção na estrada. O motorista recolheu o braço para o corpo, freou bruscamente a viatura, abriu o carro e desceu, batendo a porta atrás de si.
Ninguém entendeu nada (pelo menos as duas visitantes não, nós a esta altura podíamos supor...), e a senhora virou-se para o sargento, com um sorrisinho simpático denunciando as gengivas escuras: “Nossa, esse moço é muito bom. Eu nem disse que a gente mora ali e ele parou o carro”. A gargalhada no carro foi em uníssono. Elas desceram, despediram-se, agradeceram e se foram. Nós tínhamos agora que encontrar o A. e coloca-lo de volta na direção da viatura. Pois passaram alguns segundos e o avistamos vindo sem jeito por detrás de um montinho de mato, batendo na farda pra tirar carrapichos. “A., o que foi aquilo? Tava com medo da alma penada? Ela mora bem ali”, era o patrulheiro sacana toda vida. “Ow! Tem certeza de que aquelas duas eram gente? Pois eu tenho certeza que elas eram sim de outro mundo. Vocês tão falando porque não viram a cara dela me olhando”.
Quando retomamos a viagem, o A. tremia como vara verde. Não dava pra acreditar naquilo. Até hoje quando nos falamos, ele pergunta se naquele dia elas desceram mesmo da viatura ou sumiram no ar. E pior: ele jura que eu sei que elas sumiram no ar e falo que desceram da viatura e se despediram só pra não dizer que ele tem razão, que elas eram sim, duas almas de outro mundo! Esse Ailton.... (Ah, desculpa! Esse é o nome dele, quando vi já tinha escrito!).Eu to rindo aqui, só me lembrando do caso. E vou rir muito mais quando for escrever sobre o Molocotô, o fantasma que assombra os homens do Batalhão de Operações Especiais e já foi até alvejado por tiros de fuzil!

domingo, julho 08, 2007

A imagem mais chocante em 4 anos

Sempre alguém me pergunta qual foi a imagem mais chocante que eu vi, nos quatro anos em que trabalhei com jornalismo policial e eu sempre cito dois casos. Os dois aconteceram num curto espaço de tempo e eu tinha pouco tempo de “rua”.
O primeiro deles aconteceu no dia 21 de abril de 2001. Nunca me esqueci a data porque era o aniversário da Andressa, minha chefe e eu estava de plantão no esquema de sobreaviso. Estava na festa dela, com os celulares e o rádio ligados, com a equipe da Unidade Portátil por perto com os telefones ligados, equipamento todo no carro, enfim. Estávamos a postos e qualquer chamado, estaríamos prontos para atender.
Por volta das 10 da noite a Andressa me chamou e disse que tinha um homicídio culposo no Gama, cidade satélite a 50 km de Brasília. Ela não tinha outros detalhes, como sexo e idade da vítima e autor do crime.
Saí da churrascaria e fui pra lá. Só sabia que era um acidente de trânsito. Até telefonei pro Copom, o Centro de Operações da Polícia Militar (o mesmo 190 que todo mundo liga, lá funciona a central de irradiação de todas as ocorrências para as quais a PM é solicitada), mas o povo nem sabia nada pra me dizer. O sargento Webster, que tava de serviço naquela noite, me disse que os policiais militares ainda estava aguardando a equipe de perícia da Polícia Civil.
Uns 500 metros distante do lugar onde estava o corpo, era possível avistar luzes das viaturas da polícia. O acidente tinha acontecido na rodovia, na entrada da cidade, e por isso tudo tinha que estar muito bem sinalizado. Pra evitar novos acidentes.
Quando cheguei perto, estranhei porque tinha uma viatura da Criminalística Polícia Civil e os homens da perícia não tinham sequer tocado no corpo da vítima. Eles estavam ali perto, conversando com os PMs que chegaram primeiro ao local.
Eu me aproximei e vi que conhecia quase todas as pessoas que estavam “conduzindo” a ocorrência. Perguntei logo porque os peritos não tinham começado o trabalho. Quem me respondeu foi o chefe da equipe de perícia:
- Flávia, pela nossa experiência, esse homem não foi vítima de atropelamento. Como nós somos a equipe de acidente de trânsito, acionamos a perícia de morte violenta. Nós até poderíamos ter começado o trabalho, mas poderíamos comprometer provas importantes, se tocássemos no corpo e depois descobríssemos tratar-se de morte violenta.
A explicação tava dada. O cara – lógico – tinha razão. Só me restava aguardar a chegada da outra equipe de perícia pra ver no que ia dar...
A minha equipe se pôs a preparar o equipamento, puxar um ponto de luz de uma casa próxima (que ficava uns 200 metros do local), providenciar tudo pro começo das gravações. O Alexandre Silva (o melhor cinegrafista que eu já conheci) captou imagens dos arredores, da via, das viaturas de polícia, do corpo da vítima – que estava de bruços – e de mais um monte de coisas. O Alexandre sempre foi muito cuidadoso, e se algum editor reclamasse que uma matéria dele não tinha imagem pra cobrir off, com certeza tava mentindo... o cara é muito preocupado com isso e tira imagem de tudo.
Uns 45 minutos depois que chegamos, estacionou perto a viatura da criminalística, dessa vez, com os peritos em morte violenta. Eles me cumprimentaram e até brincaram que iam utilizar a nossa iluminação pra facilitar o trabalho. Os dez minutos seguintes foram de preparação dos homens da perícia: luvas, câmeras, gizes, galões de água e mais um monte de trem. O corpo já tava isolado pela fita amarela e os curiosos estavam à margem.
O Herlan, meu motorista e auxiliar do cinegrafista, se propôs a iluminar o local pros peritos e eu estava vendo a movimentação, distante uns 5 metros, conversando com os policiais militares, inclusive tornei-me amiga de vários deles posteriormente.
A gente conversava e observava o início do trabalho dos peritos. Eu, nessa época, ainda pensava que o trabalho deles devia se muito desagradável (ainda porque com o tempo, eu nem ligava mais e passei a achar que era um trabalho como outro qualquer). Eu estava até um pouco distraída quando um dos peritos, com as mãos nos ombros da vítima, virou o corpo. Houve um murmúrio entre as pessoas que estavam ali e antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, um dos policiais militares pôs-se à minha frente e disse: “Flavinha, querida... você não precisa ver isso. Vai pro carro e daqui a pouco, depois que o IML levar o corpo, você volta e a gente grava o que você quiser”. Imagina se eu ia pro carro e deixar a minha equipe ali... sem falar que eu era uma repórter policial, oras. Eu não podia simplesmente me recusar a ver alguma coisa só porque era “menina”. Falei pro Gomes – esse era o nome do polícia que tava na minha frente, impedindo que eu visse o que havia ali: “Ih, pára! Eu vou ficar aqui, você vai me deixar ver o que tem lá e vamos gravar tudo o que eu precisar gravar com o corpo ali, fazendo figuração” (pode parecer frieza, mas foi isso o que eu disse. Talvez pra mostrar firmeza). Ele se de por vencido, resmungou um “tudo bem, eu avisei” e saiu da minha frente.
Os meus olhos permaneceram sobre o corpo da vítima apenas por uma fração de segundo. Foi o tempo exato de olhar, entender o que havia ocorrido e virar de costas, com as mãos cobrindo os olhos. Era a primeira vez que eu via um morto “pelo trânsito” em situação tão deplorável. Eu nunca perguntei praqueles policiais, mas não sei nem se soltei um gemido de pavor...
Tirei as mãos dos olhos e vi que Herlan já estava me perguntando se eu estava bem. Ele tinha deixado o pau de luz quando viu que o Gomes tinha tentado me impedir de olhar e que mesmo assim eu queria ver. Eu estava bem ou pelo menos estava tentando me convencer de que estava. Eu não queria nada, só queria criar coragem e olhar novamente para o corpo... eu precisava! Era uma repórter policial!
O povo continuou tentando me convencer de que não era necessário, mas eu insisti. Quando me virei, vi que o Alexandre estava gravando sem olhar no visor da BetaCam. Ele posicionou a câmera no tripé, direcionou pro corpo e apertou o botão “REC” sem olhar pra ver que tipo de imagem estava sendo gravada. Isso era inimaginável, sem se tratando do Alexandre Silva!
Achei coragem em algum lugar dentro de mim e olhei. Aí, sim, entendi de fato o que havia acontecido e depois tive certeza e enriqueci a minha “versão “ com alguns detalhes que não tinha como conhecer, apenas olhando a cena do crime. E bota crime naquilo!
A vítima era um homem mulato, de 1,72m de altura, uns 75 quilos talvez. Ele vinha caminhando pela beira da estrada, quando foi atropelado por uma bicicleta. Estava escuro (rodovias não têm iluminação artificial, de postes, somente dos faróis dos veículos) e ele ainda estava deitado no asfalto quando um veículo Pálio, trafegando pelo canto da via, o atingiu. Se tivesse terminado por aí, a imagem não teria sido tão chocante. O que aconteceu foi que ele estava debaixo da parte dianteira do carro. A mulher que estava dirigindo achou que fosse uma grande pedra e continuou dirigindo. A camisa que o homem vestia ficou enganchada nas ferragens da parte de baixo do carro. E se você está pensando que ele foi arrastado pelo Pálio, acertou. Foi isso o que aconteceu. Ele foi arrastado por 200 metros. Nem é uma distância muito grande, mas foi o suficiente para que o asfalto destruísse a pele do seu abdome e moesse os ossos da costela dele.
Quando o perito virou o corpo, todas as vísceras do homem ficaram no asfalto e só o que veio em direção ao corpo do policial foi um corpo oco, sem nada por dentro.
Talvez você consiga ter uma noção da imagem, mas com certeza ela será vaga. Muito vaga. Foi chocante. Uma imagem que ficou na minha mente, de um fato que eu considero importante causador do ‘receio’ que eu tenho de trânsito e de tudo o que o envolve.

sábado, julho 07, 2007

Memórias...

Eu já escrevi aqui sobre o “que eu queria”. Uma das coisas que eu queria – muito – era dominar a arte de contar histórias. Agora, por exemplo, que eu decidi colocar aqui as minhas histórias, vou sofrer pra isso! Se eu dominasse a arte de contar histórias, não seria essa sofreguidão toda!
Mas deixando de delongas...
“Contar histórias”... Não que eu seja uma pessoa experiente, mas porque experiência pra ficar guardada na memória, pelo menos na minha cabeça, não faz sentido! E é por isso que eu vou começar a coloca-las aqui e compartilhar com todo mundo (que quiser, claro!).
A primeira delas é o começo. Até porque não faria sentido contar as histórias sem contar como tudo começou!
Era fevereiro de 2001. A proposta para trabalhar num programa de TV em Brasília chegou. Sem tempo pra pensar (talvez se tivesse tido, não teria ido), em dois dias eu desembarquei na capital do país, pra desbravar o que eu descobriria posteriormente – e que a humanidade já sabia – um cerrado! Meio do mês de fevereiro, eu numa cidade diferente de tudo o que eu já tinha visto na vida, terra vermelha por todos os lados, um calor escaldante de dia e um frio de bater qualquer queixo à noite e, pior: minha cama e o meu travesseiro, uns 1600 quilômetros distantes de mim! Pronto! Só faltava enterrar...
Bem, mas não morri e to cá pra contar o começo da saga candanga.Um mês depois do meu desembarque naquela loucura, fui pra rua fazer matérias policiais. É, o programa chamava-se
Barra Pesada e a editoria dele, Polícia! A partir desse dia, eu não tinha idéia, mas nada mais me seguraria!!!

Passei a ver coisas que eu jamais imaginei que veria em toda a minha existência.
Vi filhos matarem pais. Rapazes matarem amigos.
Mães chorarem sobre corpos de filhos assassinados. Filhos entregarem mães à polícia. Enteados jurarem “re”matar homens, se necessário fosse.
Vi acidentes de trânsito mais assustadores do que tudo o que a minha mente consegue pensar.
Vi inocentes serem trancados numa cadeia por crimes que jamais cometeriam e vi culpados serem mantidos em liberdade.
Vi meninos serem violentados sexualmente por padrastos e meninas serem estupradas por “tios da kombi”.
Houve séries de homicídios e homicídios em série.
Vi, de posição privilegiada, tiroteios. Foram oito oficiais, fora eventuais disparos para dispersar multidão. Esses eu nem conto.
Vi, de muito perto, rebeliões de presos e tive oportunidade de ver como funciona os bastidores de negociação e gerenciamento de crise.
Ao todo foram quatro anos. Quatro anos convivendo com uma realidade sem rotina. Com a realidade chocante do jornalismo policial. Nesse tempo eu dei razão ao que ouvia nos tempos da faculdade: polícia é, sim, escola de repórter! Foram quatro anos de riqueza de aprendizado, talvez os quatro anos mais produtivos da minha vida.
Foram eles que me ensinaram como a vida é preciosa, e que ela pode se acabar e transformar tudo o que sou em absolutamente nada. Eles me ensinaram que honrar pai e mãe é muito mais que um mandamento com promessa – como se isso fosse possível -, é precioso, é necessário. É bonito, é humano, é social.
Com os quatro anos aprendi a empunhar e utilizar uma arma de fogo. A diferenciar uma PT.380 de uma .40 e de outra 9mm e a ver semelhanças entre um revólver de calibre 38, um de calibre 22 e uma espingarda de calibre 12.
Aprendi a ter medo. Naquela realidade, ele garantia a minha segurança e integridade física.
Aprendi a valorizar o trabalho da polícia e a justificar certas ações vistas pela sociedade como arbitrárias. Agora sou adepta do lema “só valoriza quem já foi ajudado por ela” – e olha que eu já fui (pode ser que isso só se aplique a corporações sérias como as que eu encontrei no DF).
Os quatro anos sem rotina, passando 95% das noites e 98% dos dias nas ruas atrás de notícia, me ensinaram a temer o trânsito. Motocicletas então... aprendi a ter verdadeiro pavor! Elas sempre protagonizaram os verdadeiros choques que os meus olhos levaram ao meu cérebro!
Aprendi a valorizar um momento simples como uma ida ao cinema com os amigos, ou uma reunião em casa – que até hoje eu prezo demaaaais.
Aprendi a não subestimar a inteligência de um vagabundo e a não superestimar também. Cada um tem sua capacidade e nunca duvide disso!
Aprendi a enfrentar um cara perigoso durante uma entrevista com serenidade nos olhos, coragem na voz e força no microfone pra não revelar a tremedeira da minha mão teimosa, que não obedecia ao comando do “ta tudo bem”.
Estas são apenas umas poucas coisas que aprendi. Aprendi a viver sozinha, aprendi por experiência o significado de ‘solidão’ e aprendi que chorar muito antes de dormir faz a gente acordar com olheiras horríveis e que em TV isso pode ser um grande problema.
Agora que resolvi colocar aqui algumas dessas experiências, vou tentar postar pelo menos uma por dia. Ao final, tudo o que eu vivi não terá um significado simples pra mim. Terá um significado grande e extremamente importante,já que eu o terei exposto a pessoas que podem até aprender alguma coisa. Obviamente essa não é a minha intenção, nem serei a responsável por ensinar, mas por expor aqui, publicamente, aquilo que me ensinou alguma coisa.Você que ta lendo, separe. Descarte aquilo que não acha importante e guarde aquilo que julgar necessário. Ou descarte tudo.....